quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Teatro: Mostrar e pensar o que se anda a fazer

Texto reproduzido do sítio www.esquerda.net

Os festivais de teatro de língua portuguesa reúnem as diferenças para engrossar o caldo na panela da língua que nos liga, e festejá-la na sua grandeza e miudezas. Por Marta Lança, Buala.org

Artigo | 2 Janeiro, 2011 - 20:54

A Descoberta das Américas (Circo Pequenos Emprendimentos), foto de João Barbosa, Ass. Mindelact

A diversidade desta comunidade em construção, que roça a língua de Luís de Camões, é feita de abusivas disparidades. Por exemplo, se compararmos uma cidade como S. Paulo com 10 milhões de habitantes a um país como S. Tomé e Príncipe de 117 mil: entre a formiga e o elefante escolhemos o São de ambos e o surpreendente facto de se falar português em mundos e estilos de vida tão diferentes. Se as diferenças são de verdade os elementos mais interessantes, a substância que nos dá a tal curiosidade pelo outro, então devem ser mostradas e valorizadas sem unificar nem reduzir. A troca faz-se desse cuidado. Os Festivais reúnem as diferenças para engrossar o caldo na panela da língua que nos liga, e festejá-la na sua grandeza e miudezas.

Durante metade do ano tem festival de teatro em alguma cidade de um país de língua portuguesa, quase todos os dias, é só procurar, na outra metade há pelo menos um por mês. Foi o que a revista Cena Aberta apurou ao tentar calendarizar os festivais internacionais de língua portuguesa. Nisto percebe-se que o interesse mútuo e intercâmbio não são apenas conversa de políticos, a sua manifestação é evidente, mas há ainda muito para fazer e dar a conhecer noutros sectores, e muitos discursos para desempoeirar.

No Brasil, o Circuito de Teatro em Língua Portuguesa em S. Paulo, o FESTILUSO do Piauí, o FESTLIP do Rio. O Festival Mindelact, em Cabo Verde, já na 16ª edição. O Festival de Agosto de Maputo, que pretendem retomar, o Festival de Teatro e Artes de Luanda, a pensar a sua 2ª edição. Em Portugal, o FITEI, o MITO - Mostra Internacional de Teatro de Oeiras, e a importante iniciativa rotativa que foi a Estação da Cena Lusófona, fora do espaço lusófono o Festival del Sur - festival dos três Continentes, das Canárias, envolvendo companhias da Europa, África e América. Isto só para referir alguns.

Trata-se de iniciativas que aprofundam o conhecimento e a troca, artística e cultural, entre a comunidade teatral dentro da comunidade de língua portuguesa. Os estereótipos sobre os vários países, já só os queremos se for para subvertê-los, e o teatro, que vive tanto da palavra, permite-nos ouvi-la e pensá-la nas várias gírias e sotaques, léxicos e humores, como uma descoberta constante. É um privilégio.

Companhias e artistas viajam para apresentarem os seus trabalhos uns aos outros e a um público que refresca o olhar do seu habitual nicho de mercado, nos territórios nacionais. O trabalho ganha em visibilidade e reflexão, pois o debate entre pessoas da área ajuda a desenvolver critérios de exigência e de comunicação sobre aquilo que se apresenta. Um Festival tem uma dimensão festiva, não menos importante que tudo o resto, e contribui para esse intercâmbio no espaço lusófono, entre agentes culturais e representações das realidades de cada um. Deve-se investir em Festivais, mas não como um fim em si ou como a grande meta de um grupo de teatro, pois, sem produção teatral de qualidade e formação, o festival será apenas um instrumento decorativo de currículos.

Circuito de Teatro em Português

O Circuito, produzido pela Dragão 7 em S. Paulo, trouxe a esta 5ª edição de 2009 três companhias portuguesas, uma brasileira e uma angolana. A Escola da Noite (de Coimbra) levou um Gil Vicente, a companhia brasileira apresentou a peça Inês de Castro, curiosa perspectiva brasileira da História portuguesa, de Matosinhos veio um musical com texto de Carlos T. Coincidência, apenas, de algumas temáticas e textos oriundos da cultura portuguesa. Já o Teatro Artimagem levou a peça O Escurial de Michel de Ghelderode.

A actriz portuguesa e mestre em dramaturgia caboverdiana Micaela Barbosa, foi lá colaborar na equipa de produção. Conta-nos que, em geral, afigurou-se “muito interessante a troca de ideias entre as diferentes realidade teatrais”.

O Circuito não acontece somente na cidade de S. Paulo. Os grupos encontram-se no primeiro dia, conversam sobre a suas experiências de criação e produção, depois circulam por 10 dias com as suas peças, cada um faz um caminho diferente pelas várias cidades do interior, “as peças acontecem ao mesmo tempo e voltamos a nos encontrar todos no último dia para fazer um balanço. É bem intensivo!”

As variantes do português comunicam perfeitamente, talvez “porque nas cidades, de alguma forma já vêm recebendo espectáculos portugueses, já não acontece o estranhamento ao ‘português de Portugal’ como acontecia há uns anos atrás. Recordo a primeira vez que me apresentei no Brasil, em 2004, como actriz, senti alguma resistência ou mesmo dificuldades em entender o texto da parte do público, mais no Rio do que em S. Paulo.”

Realidades díspares

Às vezes as abordagens dos grupos ficam vulneráveis às políticas culturais (ou ausência das mesmas) e dependentes do nível de formação oficial dos países de onde vêm, embora possam ser questionadas as clássicas conotações do que é ou não amadorismo.

É certo que Brasil e Portugal podem demarcar-se em termos técnicos, devido à sua realidade teatral profissionalizante e condições de produção mais asseguradas. A nível de produção, o Brasil tem uma política de mecenato cultural mais consolidada do que em Portugal, cujos apoios privados são quase inexistentes. E, pela própria dimensão do país, os espectáculos conseguem uma boa receita só na bilheteria.

Em África quase não há escolas de artes performativas, então, para as companhias africanas é muito importante poder levar o seu trabalho além fronteiras, mostrar a sua arte fora da terra e das condicionantes quase redutoras, vítimas da falta de referências. Os festivais são um estímulo para profissionalizar as companhias, as repercussões no trabalho não aparecem no imediato mas com a experiência da circulação vai-se apurando uma série de insuficiências e carências. Essa internacionalização credibiliza, desenvolve uma competição saudável, faz com que as companhias se disciplinem para ensaios regulares, pois figurar num elenco que se desloca a um festival é igualmente uma oportunidade para viajar e conhecer mundo.

Companhias rumo a festivais

Elinga e grupo do Centro Cultural Português do Mindelo

Como em todos os sectores, os Festivais não fogem à regra do ciclo vicioso e dos monopólios dos territórios artísticos. As companhias que viajam mais são as que têm mais acesso às oportunidades, ou se dinamizam mais, por sua vez, se são os mais vistos, naturalmente têm mais convites, e o ciclo repete-se.

De Cabo Verde, um grupo com grande historial de festivais é o Grupo do Centro Cultural Português do Mindelo, dirigido pela persistência de João Branco, que organiza o Mindelact, festival de teatro do Mindelo, com uma forte componente de formação.. Esteve várias vezes no FESTILIP, foi ao festival de Angola e outros.

De Angola, o Elinga Teatro é frequentemente convidado. Apresentou no Circuito “um teatro mais engajado socialmente”, explica Micaela, que acompanhou o Elinga durante o evento. “Apesar de ambos africanos, é uma realidade completamente diferente da caboverdiana. Apesar do Elinga se considerar um grupo amador ao nível de condições de produção, têm um engajamento diferente.”

No contexto da maioria dos grupos angolanos, que são da periferia e auto-empreendedores, encenam-se a si próprios sem meios técnicos nem formação, com um imenso voluntarismo, o Elinga Teatro de Luanda é de facto uma excepção de persistência num determinado tipo de teatro. Apesar das carências regulares em Luanda, como a falta de energia, transporte, um elenco flutuante, já apresentou 36 produções (em 22 anos), a maioria peças da autoria de Mena Abrantes, encenador do grupo, mas também de outros angolanos como Pepetela, Ondjaki e Manuel Rui, e outros como Jean Anouilh, Amin Maalouf, José Saramago, os brasileiros Plínio Marcos, João Cabral de Melo Neto e Alcione Araújo; os espanhóis Garcia Lorca e Alfonso Castelao; o inglês Peter Shaffer; o norueguês Henrik Ibsen e o sul-africano Percy Mtwa.

Em Cabo Verde, o Mindelact é um exemplo de festival que dinamiza a produção teatral nas ilhas, o turismo cultural pois já é o espelho da cidade do Mindelo. Tem uma rede internacional de reincidentes, como Miguel Seabra, do Teatro Meridional, Marionetas do Porto, Mutumbela Gogo de Moçambique, Nelson Xavier de Brasil, Bernard Massuir da Bélgica, Elinga Teatro de Angola, Dos-a-Deux de Brasil-França, Marcelo Ndong da Guiné Equatorial, “que ajudam a construir e a prestigiar essa utopia chamada Mindelact” (ver artigo de César Shofield Cardoso). É também uma “boa força motriz para a criação porque é um espaço de privilégio para novos autores e encenadores que, a partir dali, podem ter visibilidade”, lembra Micaela Barbosa. O caboverdiano Mário Lúcio Sousa é um dramaturgo ligado ao Mindelact, como outros da terra, Espírito Santo Silva e Buchico, cujas peças estrearam no âmbito do Mindelact.

Mas é, sobretudo, o prazer de fazer teatro que está por detrás de tudo isto. Esse bichinho que dá toda a coragem para mostrar publicamente emoções, histórias, gestos, universos que se enredam uns nos outros e nesta língua roçadora.

2 comentários:

  1. Obrigada pelo comentário no Delírios e Paranóias. Essa sua "ofensiva" é muito importante pra mim. Comentários assim servem tanto para complemento da ideia como para réplica da mesma. =)
    ___
    É uma pena que haja pouca divulgação desses festivais. Na verdade, não há pouca divulgação somente dos festivais, mas sim de peças isoladas.
    O brasileiro infelizmente não tem o costume de ir ao teatro (eu sou um exemplo). Eu não vou ao teatro por causa dos preços dos ingressos. Na verdade eu até criticava um pouco o teatro por isso. Mas com um trabalho da faculdade descobri que os custos diretos e indiretos de uma montagem de peça são altos, por isso acabam cobrando caro.
    Seria muito bom se as pessoas tivessem mais acesso ao teatro..
    Vejo que perdemos tantas oportunidades boas.. Imagino ver uma peça de outro país (de lingua PORTUGUESA, claro)..
    Ah se de fato houvesse divulgação e mais acesso..

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    Aproveito para desejar a todos um FELIZ ANO DE 2011

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