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terça-feira, 26 de abril de 2011

Ainda sobre Alieksandr Pietrovich

O ponto de inflexão deste novo artigo ainda é o personagem do livro “Recordação da Casa dos Mortos”. E, antes de tudo devo realizar uma errata sobre o texto anterior, revendo as palavras mas não seu sentido. Disse que este livro foi publicado antes das “Memórias do Subsolo” notando, ainda, o caráter denso da psicologia de Pietrovich ocorre que este livro foi publicado depois das Memórias.

Isto de modo algum invalida o raciocínio. Pietrovich é de fato mais denso, num sentido psicológico, humanista (se é que isto se pode encontrar em Dostoiévski). Seu viés humanizado somente assume a função de tipo ideal num olhar atento enquanto o homem do subsolo é um tipo ideal ao paroxismo (fato que comentarei em outro texto)

A errata não é o motivo deste texto, que ao contrário do outro versará sobre um trecho específico do livro, mas o início do trecho a confirma na afirmação “preocupava-me muito esta questão tão ampla das dores e ao que podiam ser comparadas. Não sei qual o motivo desta minha curiosidade. Repito eu ficava perplexo, fora de mim.”

O trecho realiza a transição entre a inflexão do personagem e a sua ambivalência que estará em jogo neste texto. O trecho em questão é de interesse por duas razões, uma confirmar o caráter ambivalente do personagem, ou seja, sua inconsciência a cerca de determinados fatos, bem como ressaltar a questão central da humanidade que se coloca a partir das dores.

Neste momento quero ressaltar o rompimento com uma tradição, humanista, pela afirmação da inconsciência e a consequente não identificação da linguagem com o ser estruturante do real, por outras palavras, Pietrovich reconhece, em sua inquietude, a diferença entre o real e o que efetivamente pode ser dito. Assim, reconhece também a primazia mas não a exclusividade da linguagem como forma de estruturar o real.

À continuação refere-se à condição que desumaniza já claramente no retraimento daquilo que é o aspecto primário da estruturação do real. Então, vê-se o paradoxo, reconhece na condição humana a possibilidade de estruturar o real de outras formas que não a linguagem mas reconhece nesta condição humana um caráter desumanizante por não ser capaz de representar a representação do objeto, ou seja, descrever sua percepção. Neste sentido, “o castigo da flagelação , tão usado entre nós é a mais severa de todas as existentes. (…) Atacam mais os nervos, abalam o organismo todo, ferem de maneira insuportável.

Atento a sua sociedade não deixa passar o caráter dialético do pathos que enuncia em relação ao preso e dialeticamente repara como a dominação não permite também a manutenção da condição humana e isto com ainda mais vivacidade. Reparem “Não sei se acaso ainda existem, mas outrora havia homens que só em supliciar suas vítimas experimentavam júbilo (…) Sangue e poder estonteiam, em geral desenvolvem a brutalidade e a perversão, o espírito e p sentimento se tornam pasto de prazeres esdrúxulos.

A condição de homem é colocada em jogo numa dupla prisão a da perversão e da dor. Nestes casos o que se experimenta é, em sentido forte a morte, a morte do ser humano que por sua natureza, a contrario senso, é livre. Leia-se “A volta ao estado de homem e cidadão se torna impossível não havendo mais consciência nem arrependimento, e sim voracidade e delícia.”

Evidencia o caráter ambivalente de personagem narrador no fim desta digressão completamente teórica reafirmando o caráter de seu tempo na contradição direta com sua primeira fala, onde afirma não saber se existe ainda o júbilo no dominar. Como veremos sua contradição é clara e proposital, paroxística, visa atenuar a condição que é o fundo de todas as dores e perversões que até aqui foram faladas, sua sutileza estilística deixa para o fim a revelação da práxis de seu tempo e do próprio caráter geral da análise que até agora fizera. Veja-se “Todo industrial sente uma dose de prazer pelo fato de os seus operários e respectivas famílias dependerem totalmente dele

Por fim, remete à ação humana e sua contradição entre o recebido, aquilo que lhe foi deixado no leite materno, e o que pode ser feito, a empreitada da libertação. Assim, afirma a crença num ressurgir não de mortos concupiscentes mas de homens e cidadãos.

Alieksandr Pietrovich é o espírito do tempo em que a dominação nos transformou em mortos e sua ambivalência revela a participação no que é, no que se retrai e no que não se sabe. Isto demonstra-se pelo salto filosófico que realizou entre a digressão sobre a tirania e a realidade autocrática de seu tempo, bem como em direção à possibilidade de transformação da realidade, o novo.

Seu cárater culturalmente restrito (espacial(, realiza o próprio ser do tempo em que vive constantemente atualizado. “As gerações não se esquecem duma hora para outra o que herdaram não se desprendem com facilidade do que recebem no sangue; daquilo que sugaram com o leite materno, não existem transformações súbitas. Seus erros, seus pecados originais, não basta reconhecê-los. Cumpre erradicá-los também, e não é tarefa fácil.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sobre quem é Alieksandr Pietrovich

Dei a ler, novamente, “A recordação da Casa dos Mortos” de Dostoiévski e percebi como se apresenta em seu modo de escrever um critério de historicidade que nos impõe alguns problemas a pensar. Mas comecemos pelo início. O Objetivo deste artigo não é tratar do que está escrito na estória do romance mas sim do personagem que lhe narra. Seja permitida uma digressão mantenho a distinção história/estória simplesmente para ressaltar a diferença entre o caráter histórico factual, historiográfico, do caráter histórico psicológico, filosófico/sociológico.

Quem ler o livro, em seu contexto biográfico, há de saber que os fatos que ali se narram, embora romanceados, fizeram de alguma forma, inexata para nós, parte da vida real do autor. Por outro lado perceberá diversas anotações que cumprem um papel historiográfico acerca da Rússia em sua época. Por outro lado há de saber, do ponto de vista artistico, que este livro marca, por assim dizer, o rompimento com a tradição fantástica das memórias do subsolo e dos textos anteriores em busca de níveis mais profundos da consciência humana.

A referência a casa dos mortos, presídio, por seu turno tem dois aspectos um é a marca existencialista da vida focada na liberdade e o segundo é o espanto em face da vida imperceptível qualificada pelo tipo-ideal do preso. Assim, a casa dos mortos tem seu peso na palavra mortos e o questionamento inicial deve ser acerca de quem são aqueles que vivos estão mortos e o por quê? O diálogo que o livro trava num nível psicológico/histórico é então sobre a possibilidade da emancipação humana e quais suas condições. É de fato uma crítica ao estado de coisas da Rússia daquela época bem como ao estado de indigência psicológica de toda Europa numa época em que o vazio existencial, por conta da crítica da religião, deixou para ser criado um novo mundo de vivos. Por fim, o presídio pode muito bem servir de metáfora a toda condição humana existente até então como fica demonstrado em algumas passagens do texto.

Ora, o que se disse até então encontra-se na esfera da contextualização do texto mas não diz nada sobre o personagem que é objeto do artigo. Tal personagem, narrador, encontra-se primariamente dentro do contexto indicado por sua ambivalência, qual seja, ser personagem e narrador. Assim, a narrativa histórica é contada pelos olhos de um nobre que foi retirado de sua vida e levado a uma morte, ou seja, o elemento do trágico a necessidade do assassinato de sua esposa para que ele pudesse vir a enxergar o mundo em sua plenitude contém a narrativa histórica nos estritos limites pessoais que lhes são possíveis por conta de sua condição de vida.

O elemento trágico é um recurso filosófico de alta potência por que põe, em sentido forte, a evidência da reunificação e, por isto, de toda ambivalência que não é só do personagem mas também da realidade, qual seja, a diferença imperceptível pelo discurso do juízo entre pensar e ser. Ajuizar é, de todo modo, identificar o pensar e o ser com o que a ambivalência de ser narrador e personagem se explica, por outras palavras, Alieksandr é aquele que pensa e é.

De nossa parte guardamos nossa posição desconfiada face a suas especulações psicológicas pois não são senão fruto ou da reatividade do nobre recém acordado ou daquele que assumiu para si a condição de morto. No primeiro caso está marcada a incompreensão da estruturação do real daquela nova realidade no segundo seu retraimento ante a cotidianidade de sua existência. Como se vê o personagem principal do texto é também o personagem principal da crítica aos limites da razão e sua tridimensionalidade.

Todo pensamento move-se no caminho do sentido do mesmo modo como Pietrovich move-se no caminho da compreensão da estruturação do real na prisão. De todo modo quem poderia nos assegurar que toda sua percepção não é fruto de suas próprias ilusões, projeções, acerca do real. A vivacidade dos mortos do presídio está em sua própria tipicidade genérica de toda estruturação do real de uma determinada época, de modo que a condição de Alieksandr é a afirmação literarária do problema da liberdade como projeção e a crítica velada ao juízo como forma prioritária de tomar conhecimento do real.

Por fim, a marca do livro é remeter-se, ainda, aos problemas primeiros sobre a liberdade que se constituem já na própria estruturação do real como o que é feito em seus primeiros escritos sem a sutileza e o uso de recursos literários que põem em jogo este salto, necessário, do homem de ciência para a (con)ciência do homem. Tais problemas são certamente o germe de um existencialismo a ser reproduzido por toda Europa e por todo nosso tempo com vista a um niilismo ativo que seja capaz de produzir sentido para o nosso existir. De tal sorte que Alieksandr Pietrovich é o homem do nosso tempo, ou seja, aquele que se encontra na condição de pensar e ser sem, contudo, ter atingido, ainda, a condição de aproximar-se da dobra que estrutura o real.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

História e estórias

Terminei de ler o livro do Faustini, Guia afetivo da periferia. Trata-se de crônicas de um rapaz, jovem , menino que relacionam seus estados afetivos com locais da periferia do Rio de Janeiro. Apesar do fundo biográfico, o livro não é pretensioso e nem tem uma trama que desenrede num final apoteótico. É exatamente esta sua beleza, trata-se, simplesmente, da história afetiva de uma pessoa, sim, não de um personagem mas de uma pessoa.
Me inquietou, então, quem conta a história destas pessoas “normais”, destes brasileiros? A história divide-se, estou sendo leviano neste ponto, entre os que contam a história dos grandes fatos e dos grandes homens e daqueles que contam a história dos grandes processos e das grandes lutas. Mas, pelo menos eu, nunca vi ninguém contar a história das pessoas. Me pergunto se não vem daí a distinção entre estória e história.
A história das pessoas, como seu ser, está sempre por contar, seu valor se afirma a cada novo fato e a cada novo afeto. A tarefa de contar esta história está, portanto, inacessível ao historiador, “isento”, por meio de seus conceitos, afirmando seu valor a partir de algo que é a cultura da palavra. Nomeio cultura da palavra um modo de contar a história que não mais existe enquanto valor histórico, ou melhor, historiográfico, ou seja, a cultura auditiva.
Este modo afirma num nível elevado de importância e num nível elevado de respeito o que é ouvido e passado pela descendência. Neste modo, acredito eu, chegamos o mais próximo possível de conferir valor à existência real, tangível, e não conceitual da vida das pessoas e dos processos de compreensão de si e dos outros. De fato, somente pelo poder auditivo silência o apelo do conceito e podemos ouvir o apelo da vida, a final este “audível” tem mais peso que palavras em livros, pois nele se inclui todos os afetos passados e desejos futuros em relação ao interlocutor.
Tal tarefa, de contar a história afetiva das pessoas, ficou relegada às pequenas comunidades familiares ou tribais e, com ela, toda possibilidade de num sentido à la Kundera sentir compaixão. Entendo que estamos “presos”, enquanto não ouvirmos o apelo da história real, ao conceito de “outro”, não no sentido da alteridade, mas no sentido da identificação que não é identidade. Quero dizer com istok, que procuramos incessantemente nos identificar com a “dor”, enquanto vagamos desolados pela angústia da solidão. Não somos mais capazes de, por conta do domínio da história conceitual, aproximarmos afetivamente dos outros.
Por fim, devo deixar claro que não pretendo fazer ode a um tradicionalismo caturro que viva para reviver o passado mas, tão somente, relembrar que não superamos, apesar de todo esforço, a metafísica, principalmente no que tange ao conhecer, e ela significa, necessariamente um esquecimento do ser. Talvez mais a frente tente descobrir se e em que medida podemos fazê-lo.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sinal Preto: Navegando na América: A História, O Herói e a Lite...

Sinal Preto: Navegando na América: A História, O Herói e a Lite...: "Estreamos aqui a coluna de críticas literárias de Lucas Machado. Este corsário também oriundo do alto da Serra, ultimamente vem se av..."

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Engajamento na literatura Brasileira*

 Texto reproduzido da Revista de setembro de 2009 do Snipro-rio

Texto escrito por Moacyr Scliar

Os escritores, poetas e artistas em geral podem ser divididos em dosis grupos. Existem aqueles que fazem a “arte pela arte” que não admitem qualquer compromisso que não seja o rigor estético de seu trabalho. E existem aqueles que se sentem comprometidos com o mundo, com o país em que vivem, com a situação social e que querem dar sua contribuição para o projeto de mudança pelo qual tantas pessoas anseiam e que, ainda recentemente, levou Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos.

Na literatura brasileira, tivemos representamentes de ambos os tipos de pensamentos.Nas linhas que se seguem, vamos ver alguns exemplos famosos de escritores e potas considerados engajados.

O primeiro deles é ninguém menos que o famoso Gregório de Matos Guerra (1636-1696). Nascido numa família afluente (isto, aliás, não era excepcional entre os escritores; afinal, só uma pequena minoria de ricos podia proporcionar aos filhos acesso à educação),Gregório estudou no colégio dos Jesuítas, na Bahia e graduou-se na Universidade de Coimbra, em Portugal. Naquele país teve início sua carreira jurídica; foi nomeado juiz de fora de Alcácer do Sal, e depois representou a Bahia nas cortes de Lisboa. Tomou as chamadas “ordens menores”, o que lhe permitia exercer cargos na administrração eclesiástica da Bahia.

Começaram aí suas brigas: Gregório não queria usar a batina, o que gerou conflitos com as autoridades religiosas. A partir daí, ele se transformará no “Boca do Inferno”, apelido pelo qual veio a ser conhecido. Em seus poemas agredia a “canalha infernal” que abrangia praticamente todas as classes sosciais da Bahia. Era uma poesia satírica, não raro pornográfica, que contrastava com outros poemas, líricos e mesmo místicos. Acabou denunciado ao tribunal da Inquisição num processo que, contudo, não teve seguimento. Chegou a ser deportado para Angola, retornando depois. O poema abaixo é um exemplo de sua corrosiva verve:

“A cada conto um grande conselheiro, que nos quer governar cabana e vinha, não sabem governar nem cozinha e podem governar o mundo inteiro./Em cada portaum frequentado olheiro que a vida do vizinho e da vizinha pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, para levar à Praça, e ao Terreiro./Muitos mulatos desavergonhados trazidos pelos pés os homens nobres, posta nas palmas toda a picardia. Estupendas usuras nos mercados, todos, os que não furtam, muito pobres, e eis aqui a cidade da Bahia.”

Por outro lado, José de Alencar, nascido em Mecejana, Ceará, em 1829, teve menos conflitos – e mais êxito. Filho de um senador do Império, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro; bacharelou-se em Letras no Colégio Pedro II, e em Direito, curso iniciado nas faculdades de São Paulo e terminado na faculdade de Olinda. Foi professor, orador, deputado em várias legislaturas e Ministro da Justiça em 1868, mas dedicou-se mesmo à literatura e ao jornalismo.

Patrono da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, é considerado o maior espoente do romantismo brasileiro. Sua obera foi muito importante na busca de uma identidade nacional, o nacionalismo sendo um característico importante dos autores românticos. Seus personagens incluem desde representantes da burguesia carioca como sertanejos, gaúchos e, sobretudo, índios.

Até então, o indígena tinha sido visto pelos conquistadores do território brasileiro como um incômodo detalhe da paisagem, um estorvo que precisava ser eliminado – e o era: o genocídio indígena no Brasil é um dos maiores da história. Alencar seguia as ideias de Jean-Jacques Rousseau, um dos grandes ideólogos da Revolução Francesa, para quem o ser humano era essencialmente bom; corrompia-o a sociedade. Nasceu daí a imagem do “bom selvagem”, da qual Peri, de O Guarani, bravo, guerreiro, viril, é o exemplo maior.

Não só os índios eram perseguidos e exterminados no Brasil; os negros também. Em defesa destes, levantou-se a figura estraordinária que foi o baiano Castro Alves (1847-1871). Também de uma família de posse em seu estado, Castro Alves estudou Direito em Recife. Sua curta vida (morreu cedo, de tuberculose, a “peste branca” dos românticos) foi tumultuada, marcada pelo rumoroso caso com a atriz Eugênia Câmara e pela militância: ainda em recife, fundou com Rui Barbosa e outros amigos uma sociedade abolicionista. De sua luta contra a escravidão dá testemunho seu famoso Navio Negreiro.

Na transição do século XIX para o XX, um outro autor chamará atenção pela coragem: Lima Barreto (1881 – 1922). Como seu contemporâneo Machado de Assis, Lima Barreto era mulato; como ele, foi funcionário público. Mas existem grandes diferenças entre os dois. Ao contrário de Machado, Lima teve uma vida atormentada, marcada pelo alcoolismo e pela doença mental; acabou falecendo muito cedo, não sem deixar uma obra que até hoje impressiona pela crítica devastadora e que já aparecia em seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaíaas Caminha.

Narrativa de fundo autobiográfico, é uma feroz crítica à sociedade brasileira, para ele hipócrita e minada pelo preconceito. Triste fim de Policarpo Quaresma, públicado primeiro em capítulos em jornal, é igualmente satírica. Além disso, Lima Barreto usava uma linguagem coloquial, descuidada às vezes, o que não melhorava a sua relação com os círculos literários. Por último, simpatizava com o anarquismo e com o socialismo e até começou uma campanha contra aintrodução do futebol no Brasil, por ele considerado coisa do colonialismo inglês.

As idéias políticas de Lima Barreto eram confusas , mas já no começo do século XX as ideologias de esquerda, socialismo e comunismo (e sobretudo este último), adquirem caráter bem definido, sobretudo com a Revolução Russa de 1917, que influenciou muitos autores em todo o mundo.

No Brasil, o exemplo clássico é Jorge Amado (1912-2001). Nascido na Bahia, estudou Direito no Rio de Janeiro, então Capital da República, onde travou seus primeiros contatos com o movimento comunista. Militante, fez uma longa carreira política; em 1945 foi eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro. Perseguido, exilou-se na Argentina e no Uruguai, em Paris, em Praga. Seus primeiros livros (O país do carnaval, Cacau, Suor, Jubiabá, Mar morto, Capitães da areia, ABC de Castro Alves, O cavaleiro da esperança, Terras do sem-fim, Seara vermelha) tinham um conteúdo marcadamente político. Mas Jorge Amado desiludiu-se com o comunismo e os livros subsequentes, como Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e seus dois maridos, Teresa Batista cansada de guerra e Tieta do Agreste tendem mais para o lírico, para o fantasioso, para o humor.

Comunista como Jorge Amado, Graciliano Ramos (1892-1953) foi também perseguido e chegou a passar longo tempo na prisão, esperiência que descreveu em Memórias do Cárcere. Sua obra ficcional, como se constata em S. Bernardo, Angústia e Vidas Secas mostra duras condições de vida dos nordestinos.

E, por fim, chegamos à minha própria geração: um grupo de escritores e poetas marcados por um acontecimento extremamente traúmático, o golpe de 1964. Foi traumático, inclusive, porque representou um anticlímax. O começo dos anos 60 havia sido marcado por movimentos reivindicatórios que lutavam pelas chamadas reformas de base, a reforma agrária, principalmente; causas que uniam os numerosos movimentos de esquerda por toda América Latina.

A consequência disto foram as ditaduras que então surgiram e que se caracterizavam pela violenta repressão. A luta pela liberdade de expressão passou a ser a bandeira de escritores e intelctuais. Na ficção, surgiu o chamado realismo mágico ou realismo fantástico- cujo expoente maior era Gabriel García Márquez – um estilo que consistia em descrever coisas absurdas como se tivessem acontecido na realidade (e estavam acontecendo. Com a redemocratização, o realismo mágico tornou-se desnecessário. Mas enquanto houver injustiça e desigualdade, alguma forma de engajamento, de comprometimento, será necessária. Não é uma necessidade literária. É uma necessidade humana.

* Conferência proferida no seminário do Sinpro-rio “Os trabalhadores na Literatura Brasileira” em 7/11/08

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