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segunda-feira, 2 de maio de 2011

A morte de Osama, apenas mais um ritual

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Alguns sentirão saudades outros veêm no assassinato de Osama um ato simbólico sobre o modo de de agir estadunidense no mundo. Gostaria, se for possível, de me manter além de ambas as definições e propôr que pensemos sobre o sentido da morte de um grande lítder, quer concordemos com seus atos ou não. O que tentarei fazer, brevemente, é retomar a partir de um entendimento sobre os significados do estado de coisas no mundo o escrito no texto “11/09 revisitado”

A morte de Osama representa, no meu entender uma disputa, uma disputa de caráter político. Desde que a religião não serve mais de esteio para a compreensão do estado de coisas nos mantém na incompletude acerca do sentido da realidade, somente a política pode ser o esteio de nossa vida. É justamente este o caráter central do simbolismo da morte de Osama, explico, trata-se de garantir a manutenção do modelo de arrazoamento por meio da técnica em oposição ao arrazoamento por das crenças. O que os EUA querem garantir, simbolicamente falando, é a manutenção do caráter não identitário da civilização mundial, ou melhor, de uma inexistência de tal civilização.

Mas devo me ater ao arrazoamento. Arrazoar é tornar ravzoável e o modelo instaurado pela modernidade é a transição entre uma doutrina de arrazoamento por crenças para uma doutrina de arrazoamento por técnica. Ora, pelas crenças tudo é razoável, basta crer, ou seja, garantir o poder tradicional. Mas não é disto que se trata a violência sacrificial impetrada pelos terroristas não é disto que se trata, igualmente, o cordeiro imolado.

Trata-se de um lado em garantir sua identidade, ou seja, sua participação no estado de coisas do mundo moderno, ou seja, garantir que não há um só modo de se apropriar da realidade. Isto demonstra-se pelo aparato técnico (bélico) que “eles”, os orientais, os terroristas trazem em seus atos. De outro lado, para os EUA, trata-se de dizer que falta a este uso técnico o caráter adequado, ou seja,  sua “legitimidade democrática” secular. 

O paradoxal é que é exatamente com o mesmo ato sacrificial que se provam ambas as teses. É com a mesma negação de direitos e com o mesmo arrazoamento, que os EUA dizem ser baseado em crenças, que se justificam também seus atos. Pouco importa qual o caráter da crença, se secular ou teológica, é o mesmo ato ritualístico de imolar o cordeiro que garante a “legitimidade” de suas ações. Mas, como vimos, estes atos sacrificiais ritualísticos já são a expressão de nosso modo de ser, o modo da técnica, que reflete-se na exploração indefinida da natureza e dos homens.

Assim, para finalizar, o que a ação estadunidense mostra é seu conservadorismo e a confirmação da tese que querem combater, qual seja, há somente uma civilização mundial. Não há vitoriosos nestes atos sacrificiais mas somente horror e reafirmação do sagrado, mesmo que seja a sagração da lécnica “democrática”, que como já disse, não serve de esteio para um mundo plural que pretendemos construir. Então fica a pergunta, por quanto tempo deveremos construir a civilização mundial por meio de lágrimas e sangue?

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Emir Sader: O novo quadro no Oriente Médio

Texto reproduzido do sítio www.vermelho.org.br
 
Por duas fortes razões o Oriente Médio tornou-se um pilar da política externa do império norteamericano: a necessidade estratégica do abastecimento de petróleo seguro e barato para os EUA, a Europa e o Japão, e a proteção a Israel – aliado fundamental dos EUA na região, cercado por países árabes.

por Emir Sader, em seu blog Por isso o surgimento do nacionalismo árabe tornou-se um dos fantasmas mais assustadores para os EUA no mundo. Por um lado, pela nacionalização do petróleo pelos governos nacionalistas, afetando diretamente os interesses das gigantes do petróleo – norteamericanas ou europeias –, pela ideologia nacionalista e antimperialista que propagam – de que o egípcio Gamal Abder Nasser foi o principal expoente – e pela reivindicação da questão palestina.

A história contemporânea do Médio Oriente tem assim na guerra árabe-israelense de 1967 sua referência mais importante. A união dos governos árabes permitiu a retomada da reivindicação do direito ao Estado Palestino, que foi respondida por Israel com a invasão de novos territórios – inclusive do Egito -, com o apoio militar direto dos EUA.

Novo conflito se deu em 1973, agora acompanhado da política da OPEP de elevação dos preços do petróleo. A partir daquele momento ou o Ocidente buscava superar sua dependência do petróleo ou trataria de dividir o mundo árabe. Triunfou esta segunda possibilidade, com a guerra Iraque-Irã, incentivada e armada pelos EUA, que golpeou dois países com governos nacionalistas, que se neutralizaram mutuamente, em um enfrentamento sangrento. Como subproduto da guerra, o Iraque se sentiu autorizado a invadir o Kuwait – com anuência tácita dos EUA -, o que foi tomado como pretexto para a invasão do Iraque e o assentamento definitivo de tropas norte-americanas no centro mesmo da região mais rica em petróleo no mundo.

Os EUA conseguiram dividir o mundo árabe tendo, por um lado os regimes mais reacionários – encabeçados pelas monarquias, a começar pela Arabia Saudita, detentora da maior reserva de petróleo do mundo, e por outro governos moderados, como o Egito e a Jordânia. A maior conquista norteamericana foi a cooptação de Anuar el Sadar, o sucessor de Nasser, que supreendentemente normalizou relações com Israel – o primeiro regime da região a fazê-lo -, abrindo caminho para a criação de um bloco moderado, pró-norteamericano na região, que se caracteriza pela retomada de relações com Israel – portanto o reconhecimento do Estado de Israel – e praticamente o abandono da questão palestina. Passaram a atuar também dento da OPEP, como força moderadora, favorável aos interesses das potências ocidentais.

O Egito, como país de maior população da região, com grande produção de petróleo e país daquele que havia sido o maior líder nacionalista de toda a região – Nasser – passou a ser o peão fundamental no plano político dos EUA na região. Não por acaso o Egito tornou-se o segundo país em auxilio militar dos EUA no mundo, depois de Israel e à frente da Colômbia.

Essa neutralização do mundo árabe, pela cooptação de governos e pela presença militar dos EUA no coração da região – atualizada com a invasão do Iraque – constituiu-se em elemento essencial da politica norteamericana no mundo e da garantia de abastecimento de petróleo para complementar a declinante produção dos EUA e todo o petróleo para abastecer a Europa e o Japão.

É isso que está em jogo agora, depois da queda das ditaduras na Tunísia e no Egito. Impotente para agir de forma direta no plano militar, os EUA tentam articular transições que mudem a forma de dominação, mas mantenham sua essência. O Exército preferiu a renúncia de Mubarak, porque se deu conta que sua presença unia a oposição. Tem esperança que, sem ele, possa cooptar setores opositores para uma coalização moderada – com El Baradei, a Irmandade Mulçumana, com o apoio dos EUA e da Europa – que possa fazer reformas constitucionais, mas controlar o processo sucessório nas eleições de setembro, conseguindo desmobilizar o movimento popular antes que este consigar forjar novas lideranças.

Indepentemente de que possa se estender a outros países da região – de que a Argélia, a Jordânia, o Marrocos, a Arábia Saudita, são candidatos fortes – a queda das ditaduras na Tunísia e no Egito demonstra que os EUA já não poderão manter o esquema de poder montado há mais de três décadas. O menos que se pode esperar é a instabilidade política na região, até que outras coalizões de poder possam se organizar, cujo caráter dará a tônica do novo período em que entra o Oriente Médio.

A vitória do povo egípcio contra o ditador Hosnin Mubarak, que renunciou ao poder nesta sexta-feira (11), estimulou manifestações pela democracia em pelo menos dois países árabes neste final de semana: Argélia e Iêmen.

EFE
Polícia tenta conter manifestantes na Argélia
Na Argélia, milhares de pessoas desafiaram o estado de emergência em vigor há quase 20 anos, e saíram às ruas gritando palavras de ordem contra o presidente Abdelaziz Bouteflika e exigindo melhores condições de vida e maior liberdade. No Iêmen, milhares ainda ocupam o centro da capital, Sanaa, reclamando a saída imediata do ditador Ali Abdullah Saleh.


Repressão

Em Argel, o governo já tinha reprimido com brutalidade uma manifestação que comemorava a queda de Mubarak no Egito, no dia anterior, e voltou a jogar a polícia contra os opositores. Centenas de pessoas foram detidas. Helicópteros estão sobrevoando a área central da cidade, enquanto veículos blindados e barreiras impedem a passagem de ônibus com mais manifestantes. Cerca de 20 mil policiais estão trabalhando na operação.

A capital da Argélia já havia registrado confrontos entre manifestantes e policiais em janeiro deste ano, em meio a protestos contra o desemprego, os preços dos alimentos e as más condições de moradia. Os protestos populares são proibidos na Argélia devido a um estado de emergência que dura desde a guerra civil de 1992.

A mesma história

A situação no país não é muito diferente do Egito. O ditador Bouteflika, 73 anos, aliado dos EUA, comanda o país desde 1999 por meio de um regime repressivo. O desemprego é alto, especialmente entre os jovens, as carências sociais se multiplicam (verifica-se uma série crise no setor habitacional) e há uma insatisfação generalizada na sociedade, contida até agora a ferro e fogo.

Reuters
Protestos no Iêmen são inspirados pela queda de Mubarak
No Iêmen, onde os jovens lideram os protestos, a história se repete. Ali Abdullah Saleh, outro fiel aliado do imperialismo estadunidense, está há 32 anos no poder. Os ativistas, que pediam uma revolução no país árabe, chegaram a entrar em confronto hoje com um grupo de mercenários do ditador, em frente à Universidade de Sanaa. Há relatos de que as forças de segurança também se envolveram no enfrentamento.


O governo de Saleh é acusado de corrupção e concentração de poder em torno de seu clã. O partido governista, o Congresso Geral do Povo, tem ampla maioria no Parlamento. O velho ditador assumiu a Presidência da República Árabe do Iêmen (ou Iêmen do Norte) em 1978, por meio de um golpe militar. Em 1990, ele tornou-se presidente da nova república, criada a partir a fusão entre os Iêmens do Norte e do Sul.

Festa e preocupação no Egito

O povo está em festa por todo o Egito neste sábado (12). A derrocada de Hosni Mubarak, depois de 18 dias de protestos que encantaram o mundo e relançaram as luzes da revolução no palco da história, é comemorada com justiça como uma grande vitória.

Mas os líderes dos protestos continuam em estado de alerta na Praça Tahrir, de onde pretendem sair só depois que o processo de transição à democracia estiver melhor definido, assegurando a participação dos civis.

Militares

Afinal, ao cair fora Mubarak transferiu o poder aos chefes militares que literalmente até ontem sustentavam o ditador.

As sinalizações dos generais e os compromissos com a democracia ainda não são convincentes. As primeiras declarações do Comando Militar procuram acalmar e agradar Israel e EUA, anunciando respeito aos acordos internacionais formados pelo país, o que inclui o controverso tratado de paz com Israel.

Já os acenos ao povo e à oposição foram tênues e dúbios. Os líderes do protesto exigem um compromisso mais explícito dos militares com a democratização do país e querem, de imediato, o fim do estado de emergência e dos tribunais militares, a libertação de todos os presos políticos e o desmantelamento do aparelho repressivo.

Barricadas

Na praça Tahrir, ponto principal de concentração dos protestos iniciados em 25 de janeiro, centenas de pessoas continuavam acampadas neste sábado. Milhares de manifestantes passaram a noite no local, comemorando a saída do presidente.

O Exército egípcio começou neste sábado a retirar as barricadas dos acessos à praça, removendo carros queimados que serviam de barreiras. As Forças Armadas mantêm tanques e veículos blindados nas ruas, principalmente em frente aos prédios do governo e de outras instalações importantes.

O clima é de festa e comemoração. Muitas bandeiras do Egito podem ser vistas nas janelas dos prédios e penduradas em árvores. O comércio voltou a abrir normalmente e o policiamento foi retomado, com a circulação de viaturas nas ruas do Cairo.

Reformas em debate

As emissoras de TV locais já realizam debates discutindo o futuro político do Egito, assim como as reformas que o Conselho das Forças Armadas - que assumiu o controle do país após a saída de Mubarak - pode realizar.

Diversos grupos já propõem mudanças na Constituição, nos artigos referentes ao processo político e às liberdades civis. A forma de governo do país - com a definição entre presidencialismo e parlamentarismo - também deve entrar em discussão.

Já Mubarak continua com sua família em seu palácio no resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, sob forte esquema de segurança montado pelo Exército. Segundo o correspondente da BBC no Cairo Jon Leyne, ainda não se sabe se o ex-presidente permanecerá no Egito. Também é incerto o futuro do vice-presidente, Omar Suleiman, e de outros civis que mantiveram seus cargos do governo anterior.

Por enquanto, não se sabe quais serão os próximos passos do novo governo. Mas os militares prometeram encerrar o estado de emergência que vigora no país há 30 anos.

Derrota dos EUA e Israel

Os Estados Unidos, que gostam de se apresentar com a máscara de campeões da democracia, manobram para controlar os acontecimentos e ainda desfrutam de forte influência no seio das Forças Armadas. O primeiro comunicado do Comando Militar, garantindo respeito aos tratados internacionais firmados por Sadat e Mubarak, revela isto.

Mas a poderosa onda de protestos que agita o mundo árabe e o Oriente Médio tem a um só tempo um caráter democrático e antiimperialista. Não condizem com os interesses do império. Como disse neste sábado o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Said Jalili, a queda do ditador Hosni Mubarak demonstra o “fracasso dos Estados Unidos e do sionismo [de Israel] na região”.

Da Redação, Umberto Martins, com agências

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quando as revoltas se transformam em revoluções

Se estas revoltas se transformarem em revoluções não é apenas o Norte de África e o Médio Oriente que poderão mudar de rumo.
 
opiniao | 9 Fevereiro, 2011 - 12:00 | Por João Teixeira Lopes

Os Estados Unidos, os países europeus e Israel estão com um medo terrível de que as revoltas no Norte de África se transformem em revoluções. É que quando falamos de revoluções estamos a referir-nos a mudanças profundas no status quo. Não se trata, pois, de conceder, de forma paternalista, algumas liberdades formais. As revoluções não outorgam a outrem o poder de decidir ou de condescender: elas são movimentos de tomada colectiva da palavra e da decisão para mudar a estrutura do poder, da propriedade, da distribuição do rendimento e das posições de classe.

Não admira, por isso, que se reavivem as teses da “impossibilidade da democracia” nestes países, a par do espantalho do islamismo ou da impreparação das populações. Do mesmo modo, os sucessivos enquadramentos de uma “transição pacífica” (isto é: comandada habilmente pelo poder instalado, em geral amigo de Washington) visam acima de tudo reduzir o alcance dos protestos e limitá-los a eventos desgarrados, desesperados e relativamente conjunturais.

Poderemos estar a assistir à emergência de populações que se querem auto-determinar e nada aponta para que a religião esteja a assumir um papel primordial. Provavelmente subestimamos todos a consciência, a força e a vontade desta gente. A experimentação destes momentos de puro início poderá levar a uma consciência da especificidade árabe, conduzindo a uma acção colectiva organizada a partir de dentro, isto é, alimentada pela dinâmica da própria revolta. Desconfiemos, por isso, das lideranças súbitas, dos vira-casacas, dos aumentos de salários, das medidas de contenção de danos. Se estas revoltas se transformarem em revoluções não é apenas o Norte de África e o Médio Oriente que poderão mudar de rumo. O seu impacto será global.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Fórum Social Mundial exalta parceria entre Brasil e África

Sob o forte sol de Dacar, no Senegal, cerca de 60 pessoas se reuniram na Place Du Souvenir, nesta terça-feira (8), para o debate “Brasil-África, balanços e desafios”, com o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, o senador Inácio Arruda (PCdoB-CE) e o professor senegalês Bernard Founou. A atividade foi promovida pelas fundações Maurício Grabois (PCdoB) e Perseu Abramo (PT), como parte do 11º Fórum Social Mundial.

Gilberto Carvalho — que representou o governo Dilma — decretou a falência do velho modelo de apoio antes destinado à África. Todo o financiamento internacional era centralizado em uma pequena elite, servindo, portanto, apenas para o aumento da grave desigualdade social do continente. Agora, o apoio de países como China e Brasil fortalece o desenvolvimento tecnológico sustentado pela valorização da rica diversidade étnica e cultural do continente.
Para Carvalho, é importante que eventos como o FSM ocorram em solo africano. Segundo ele, se os laços políticos entre os governos são importantes, os laços de solidariedade estabelecidos entre a sociedade civil e os movimentos sociais também são imprescindíveis para o pleno desenvolvimento do continente negro.

O ministro elencou as diversas iniciativas empreendidas pelo Brasil em apoio à África durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como a obrigatoriedade do ensino de história africana nas escolas, a instalação de uma sede da Embrapa em Gana, a criação da universidade luso-brasileira na cidade cearense de Redenção e a instalação de um laboratório da Fiocruz em Moçambique.

Carvalho falou ainda do projeto em análise pelo governo Dilma de reservar cotas de vagas do ProUni a estudantes africanos. Segundo ele, a gestão da presidente Dilma Rousseff tem a missão de aprofundar as relações com a África a partir de um novo modelo que não se baseie na exploração e no assistencialismo — mas, sim, em laços de irmandade e solidariedade com o continente.

Histórias de luta

Já Inácio Arruda traçou a identidade entre os continentes americano e africano — marcados pelo genocídio de seus povos originários e pelos saques de suas riquezas. De acordo com o senador, a história comum de sofrimento e resistência gerou, em ambas as regiões, povos que carregam a perspectiva da luta libertária e da solidariedade. Para Inácio, essas características permitiram que os continentes superassem um passado de exploração e passassem a ocupar o centro das transformações políticas em curso no mundo.

O senador destacou a necessidade da integração solidária entre a América Latina e a África a partir do campo popular e democrático das sociedades civis e dos governos. Ele disse que o Brasil é um exemplo de como as repúblicas democráticas da América Latina podem ajudar a África a reescrever sua história por uma ótica de superação e conquista da soberania plena.

Democracia e soberania

O professor Tounou iniciou sua intervenção lembrando que durante muito tempo se ensinou nas escolas que as relações com as potências coloniais se transformaram, ao longo das décadas, em relações de cooperação. Ele contestou essa falácia afirmando que a transformação que ocorreu mudou o tipo de colonialismo, mas nunca deixou de ser o que é até hoje em muitos países.

Na opinião de Tounou, enquanto os Estados Unidos diziam estar na África para salvar o continente do colonialismo europeu, estavam, na verdade, aprofundando os instrumentos de exploração e a dependência africana aos países desenvolvidos. Ele falou da grave crise que o continente enfrenta desde a década de 1980 e disse que, mesmo assim, os países ricos não titubearam em jogar nas costas do povo o preço da crise que assolou o mundo nos últimos anos.

O professor enalteceu o novo modelo de desenvolvimento africano — estabelecido através da entrada dos investimentos dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Para ele, a relação entre esses países deve se afirmar em valores como a democracia e a soberania nacional. É nesse sentido que o Brasil serve de exemplo, apoiando a África na busca de seu próprio caminho de superação dos problemas e mazelas sociais.

Segundo Tounou, a construção dessa alternativa não será fruto apenas do esforço de governos progressistas, mas precisa também ser consequência da ação dos movimentos sociais — os verdadeiros protagonistas da construção de uma nova ordem mundial baseada na igualdade e na soberania.

De Dacar, Lúcia Stumpf


Como os “mercados livres” matam milhões todos os anos

Texto reproduzido do sítio www.esquerda.net
Por Ricardo Coelho
 
O ano de 2008 foi marcado por uma crise alimentar que arrastou mais 200 milhões de pessoas para a fome, revertendo os resultados de uma década de avanços na luta contra a fome.
A crise mostrou-nos de forma cruel o resultado da crescente instabilidade deste mundo em que vivemos, marcado pela entrega da produção a mercados financeiros voláteis, pela precarização das relações laborais e pelas alterações climáticas. Quando se juntam todos estes factores de instabilidade, temos um ciclo de pobreza e uma sucessão de crises ambientais, económicas e sociais que se acumulam, complementam e reforçam. Os factores de instabilidade não desapareceram, pelo que se espera de novo um aumento da fome no mundo.
O ano que passou ficou empatado com 2005 no lugar do ano mais quente de sempre. Dezanove países registaram temperaturas recordes, um número sem precedentes, com o Paquistão a registar a temperatura mais elevada alguma vez medida na Ásia. O ano de 2010 marcou também um novo recorde de extremos climáticos, destacando-se as inundações no Paquistão e na Austrália e a onda de calor na Rússia. As consequências destes desastres “naturais” sem precedentes também se fazem sentir na produção alimentar dos países afectados, tendo alguns países, como a Rússia, banido as exportações de cereais.
Quando um país sofre uma quebra significativa na sua produção alimentar, apenas poderá evitar uma diminuição na quantidade de calorias ingerida pelos seus habitantes se tiver recursos para importar alimentos. A mesma catástrofe climática terá, portanto, um impacto muito diferente num país rico ou num país pobre. Mas nos anos recentes há um factor ainda mais importante do que a variação da produção na determinação de quantos seres humanos morrem à fome por ano: a especulação com os preços.
O segundo semestre de 2010 foi marcado por um enorme aumento na especulação com bens alimentares essenciais. Num período sem grandes mudanças na procura ou na oferta mundiais, o custo dos bens alimentares subiu em 32%, de acordo com a FAO. No mesmo período, o preço do trigo aumentou em 70%, apesar de os stocks mundiais se terem mantido estáveis. Em cada mês deste semestre, o aumento do índice de preços dos alimentos registou um novo recorde, um cenário que se repetiu em Janeiro deste ano.
Na raiz deste pico na especulação com commodities está a crise financeira. De cada vez que uma bolha especulativa rebenta, o preço da maior parte dos activos desce a pique, pelo que os especuladores ficam com muito dinheiro na mão sem ter muitas opções rentáveis onde o aplicar. A consequência é um aumento na especulação com activos cujo rendimento seja mais seguro, nomeadamente os baseados em bens energéticos ou alimentares. Assim, não só o laço entre produtores e consumidores de alimentos é quebrado pelo jogo bolsista como os custos de produção de alimentos se encontram à mercê das flutuações do mercado de petróleo. No fim, temos um mundo em que se torna cada vez mais ténue a relação entre o preço final dos alimentos e as flutuações nas variáveis climatéricas, como a temperatura e a pluviosidade.
Para Olivier De Schutter, Relator Especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, a especulação com bens alimentares foi a principal causa da crise alimentar de 2007-08. As ONGs de desenvolvimento resumem o problema com uma fórmula simples: não é uma questão de não ter que comer mas antes de não ter dinheiro para comprar comida. Estamos claramente perante uma manifestação extrema da desigualdade no acesso aos recursos naturais.
No centro de toda esta miséria, estão as grandes multinacionais que dominam grande parte da produção alimentar. As políticas seguidas pelas instituições internacionais nas últimas décadas, como a Revolução Verde, a abertura das fronteiras dos países do Sul, o reforço dos subsídios agrícolas nos países do Norte e as medidas de liberalização do sector agrícola, tiveram como resultado a destruição de grande parte do aparelho produtivo baseado na agricultura de pequena escala e a sua substituição pela agricultura intensiva de grande escala.
O aumento da produção alimentar conseguido com a intensificação da agricultura trouxe significativos aumentos na produtividade agrícola, mas a fome continuou a aumentar. A generalidade dos países menos desenvolvidos passaram de exportadores a importadores de alimentos e a sua população rural passou por um processo de proletarização, sendo cada vez mais composta por trabalhadores mal remunerados. Enquanto as empresas do sector agro-industrial registam aumentos nos lucros ano após ano, quase um bilião de pessoas no mundo passa fome porque não tem como comprar alimentos nem como os plantar. O cúmulo do escândalo atinge-se quando são estas as empresas que fornecem alimentos às agências de ajuda humanitária, aproveitando inclusive para escoar a sua produção de sementes geneticamente modificadas.
O caso da Somália mostra como a ganância do lucro, a volatilidade dos mercados desregulados e os extremos climáticos se podem conjugar para criar o inferno na terra. Uma seca extrema levou a que a proporção da população dependente de ajuda externa para sobreviver tenha aumentado para um terço. Em algumas regiões, estima-se que 30% das crianças estão seriamente sub-nutridas. Isto apenas um ano depois de o país ter registado uma boa colheita. Quem ainda pensa que o capitalismo pode resolver o problema da pobreza em que vive a maioria da humanidade deveria colocar lá os seus olhos.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nós somos internacionalistas – Comunistas no Poder no Nepal

Texto reproduzido do sítio esquerda.net
Eleição ocorreu após patética crise de sete meses, e só foi possível pela aliança de marxistas-leninistas e maoístas, e também devido às mudanças das regras eleitorais.
Artigo | 8 Fevereiro, 2011 - 17:12 | Por Tomi Mori
O novo primeiro-ministro Jhala Nath Khanal, do Partido Comunista do Nepal (Unidade Marxista-Leninista). Foto de Krish Dulal, wikimedia commons
O novo primeiro-ministro Jhala Nath Khanal, do Partido Comunista do Nepal (Unidade Marxista-Leninista). Foto de Krish Dulal, wikimedia commons
A reunião do parlamento nepalês elegeu na sexta-feira Jhala Nath Khanal, do Partido Comunista do Nepal (Unidade Marxista-Leninista) para o cargo de primeiro-ministro. A eleição de Khanal ocorreu após uma longa e patética crise, que durou nada menos do que sete meses, desde que Madhav Kumar Nepal, do mesmo partido, renunciou ao cargo em Junho do ano passado.
Durante esse longo período, Kumar manteve-se como primeiro-ministro provisório, sem que o parlamento conseguisse eleger um novo mandatário, devido à profunda crise política que vive o país. A eleição de Khanal, com 368 votos contra os 122 votos do seu principal oponente, Ram Chandra Paudel, do Congresso Nepalês, só foi possível com o apoio dado pelo Partido Comunista do Nepal Unificado (maoísta), que retirou a candidatura do seu dirigente, Puspha Kamal Dahal Dahal, firmando uma aliança politica com o UML.
O que representa o novo governo
O poleiro continua o mesmo, mas os papagaios mudaram de posição. Essa é a síntese do novo governo nepalês. O anterior governo, encabeçado por Madhava Kumar Nepal, era uma frente popular, rota e em grave crise após a saída dos maoístas do governo, composta pelo UML e o CN (Congresso Nepalês). Durante sete meses, esses senhores, dirigentes dos três principais partidos nepaleses, transformaram o pais num pântano inimaginável, se considerarmos que já estamos no século XXI.
Foram sete meses onde o parlamento se reunia para eleger um novo primeiro-ministro, sem que conseguisse fazê-lo. A eleição só foi possível graças às mudanças realizadas recentemente nas normas eleitorais. Desta vez, sim ou sim, teriam de eleger um novo mandatário, que fez com que essa longa e patética negociação política terminasse com a eleição de Khanal.
Se antes o UML estava aliado ao Congresso Nepalês, agora está no governo aliado ao PCNU, maoísta. Sem duvida, isso representa um mudança. O governo continua a ser uma Frente Popular, já que irá incorporar outros partidos burgueses com menos expressão que o CN. Na prática é uma frente popular mais débil do que a anterior, formada pelos três partidos.
Após a derrota, Paudel, do Congresso Nepalês, declarou que a exclusão do seu partido do governo irá significar um aprofundamento da crise política. Desta vez, somos obrigados a concordar com Paudel, já que mesmo após a eleição da nova frente popular, o que temos no Nepal continua a ser uma crise revolucionária, aprofundada com a poderosa greve geral revolucionária de Maio do ano passado, que paralisou o pais durante vários dias.
O apoio à candidatura de Khanal, do UML, custou aos maoístas do PC do N Unificado uma forte crise, já que o dirigente de sua ala mais à direita, Baburam Bhattarai, opôs-se a essa aliança. Os maoístas vivem uma profunda crise e divisão, já que a disposição das suas bases é seguir o processo rumo à revolução, chocando-se com a posição dos seus dirigentes, que querem, a todo custo, submeter a revolução nepalesa à camisa-de-forças do débil regime democrático nepalês.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Slavoj Zizek: Por que temer o espírito revolucionário árabe?

Texto Reproduzido do sítio www.vermelho.org.br
A reação ocidental aos levantes no Egito e na Tunísia frequentemente demonstra hipocrisia e cinismo. A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? O artigo é de Slavoj Zizek.
O que não pode deixar de saltar aos olhos nas revoltas Tunísia e Egito é a notável ausência do fundamentalismo islâmico. Na melhor tradição democrática secular, as pessoas simplesmente se revoltaram contra um regime opressivo, sua corrupção e pobreza, e demandaram liberdade e esperança econômica. A sabedoria cínica dos liberais ocidentais - de acordo com os quais, nos países árabes, o genuíno senso democrático é limitado a estreitas elites liberais enquanto que a vasta maioria só pode ser mobilizada através do fundamentalismo religioso ou do nacionalismo - se provou errada.
Quando um novo governo provisório foi nomeado na Tunísia, ele excluiu os islâmicos e a esquerda mais radical. A reação dos liberais presunçosos foi: bom, eles são basicamente a mesma coisa; dois extremos totalitários - mas as coisas são simples assim? O verdadeiro antagonismo de longa data não é precisamente entre islâmicos e a esquerda? Ainda que eles estejam momentaneamente unidos contra o regime, uma vez que se aproximam da vitória, a sua unidade se parte e eles se engajam numa luta mortal, frequentemente mais cruel do que aquela travada contra o inimigo comum.
Nós não testemunhamos precisamente tal luta depois das eleições no Irã? As centenas de milhares de apoiadores de Mousavi lutavam pelo sonho popular que sustentou a revolução de Khomeini: liberdade e justiça. Ainda que esse sonho tenha sido utópico, ele levou a uma explosão de criatividade política e social de tirar o fôlego, experiências de organização e debates entre estudantes e pessoas comuns. Essa abertura genuína, que liberou forças de transformação social então desconhecidas, um momento no qual tudo pareceu possível, foi então gradualmente sufocada pela dominação do controle político e do establishment islâmico.
Mesmo no caso de movimentos claramente fundamentalistas, é preciso ser cuidadoso para não perder de vista o componente social. O Talibã é usualmente apresentado como um grupo fundamentalista islâmico que impõe suas leis pelo terror. No entanto, quando, na primavera de 2009, eles tomaram o Vale de Swat no Paquistão, o The New York Times noticiou que eles arquitetaram "uma revolta de classe que explora profundas fissuras entre um pequeno grupo de ricos donos de terra e seus inquilinos desprovidos de um chão". Se, ao "se aproveitar" dos apuros dos agricultores, o Talibã estava criando, nas palavras do New York Times, "um alerta sobre os riscos ao Paquistão, que permanece sendo largamente feudal", o quê impediu os democratas liberais do Paquistão e dos Estados Unidos de, da mesma forma, "se aproveitarem" desses apuros e de tentarem ajudar os agricultores sem terra? Ocorre de as forças feudais no Paquistão serem aliados naturais da democracia liberal?
A conclusão inevitável a ser delineada é que a ascensão do islamismo radical sempre foi o outro lado do desaparecimento da esquerda secular nos países muçulmanos. Quando o Afeganistão é retratado como sendo o exemplo máximo de um país fundamentalista islâmico, quem ainda se lembra que, há quarenta anos atrás, ele era um país com uma forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética? Para onde essa tradição secular foi?
É crucial analisar os eventos em andamento na Tunísia e no Egito (e no Iémen e ... talvez, com esperança, até na Arábia Saudita) em contraste com esse pano de fundo. Se a situação for eventualmente estabilizada de modo ao antigo regime sobreviver, apenas passando por alguma cirurgia cosmética liberal, isso irá gerar um intransponível retrocesso fundamentalista. Para que o legado chave do liberalismo sobreviva, os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical. De volta ao Egito, a mais vergonhosa e perigosamente oportunista reação foi aquela de Tony Blair noticiada na CNN: mudança se necessário, mas deverá ser uma mudança estável. Mudança estável no Egito, hoje, só pode significar um compromisso com as forças de Mubarak na forma de ligeiramente alargar o círculo do poder. Este é o motivo pelo qual é uma obscenidade falar em transição pacífica agora: pelo esmagamento da oposição, o próprio Mubarak tornou isso impossível. Depois de Mubarak enviar o exército contra os protestantes, a escolha se tornou clara: ou uma mudança cosmética na qual alguma coisa muda para que tudo continue na mesma, ou uma verdadeira ruptura.
Aqui, portanto, é o momento da verdade: ninguém pode arguir, como no caso da Argélia uma década atrás, que permitir eleições verdadeiramente livres equivale a entregar o poder para fundamentalistas islâmicos. Outra preocupação liberal é de que não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe; Mubarak se assegurou disso ao reduzir a oposição a ornamentos marginais, de forma que o resultado acaba sendo como o título do famoso romance de Agatha Christie, "E Então Não Havia Ninguém". O argumento de Mubarak - é ele ou o caos - é um argumento contra ele.
A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente".
Para onde, então, Mubarak deve ir? Aqui, a resposta também é clara: para Haia. Se existe um líder que merece sentar lá, é ele.
(*) Nota do Tradutor: o título original do livro de Agatha Christie é "And Then There Were None", conhecido aqui no Brasil como "O Caso dos Dez Negrinhos".

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Egito a caminho da revolução. O que fazer?

Texto reproduzido do sítio www.grabois.org.br
Por Reginaldo Nasser
Aqueles que temem o crescimento do “islamismo radical” como fator de instabilidade nessa região, deveriam estar mais atentos em relação às “ditaduras amistosas” que, na verdade, são as principais responsáveis pela insegurança no mundo. Desemprego em massa, preços dos alimentos e repressão política é uma combinação explosiva mais perigosa do que os homens bomba. No caso do Egito dois terços da população são jovens abaixo de 30 anos, dos quais 90% estão desempregados.
As mobilizações populares na Tunísia, Egito, Iêmen e em outros lugares são um alerta para o chamado mundo desenvolvido e seria uma grande avanço para a democracia se esta região que permanece imersa na violência, em fraudes eleitorais e miséria crescente da população recebesse o devido apoio internacional nesse momento.
O porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, disse que os EUA poderão revisar a ajuda ao Egito. O presidente Obama solicitou às autoridades egípcias que evitem o uso de qualquer tipo de violência contra manifestantes pacíficos, alertando que " aqueles que protestam nas ruas têm uma responsabilidade de expressar-se pacificamente. Já a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que a “estabilidade do país é muito importante, mas não a qualquer preço”. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que "os líderes do Egito escutem as preocupações legítimas e os desejos de seus cidadãos”. O primeiro ministro britânico David Cameron declarou: “Eu acho que precisamos de reformas. Quero dizer que nós apoiamos o progresso e o reforço da democracia”.
Como avaliar a atitude desses líderes mundiais? Patética, cínica, hipócrita, irresponsável? Talvez devêssemos recorrer a um grande pensador liberal do século XIX, Aléxis de Tocqueville, e ouví-lo a respeito dos períodos revolucionários na França. Tocqueville alertava para o fato de líderes, que adquiriram experiência em lidar com a política em ambiente de ausência de liberdade, quando se encontraram diante de uma revolução que chegou “inesperadamente”, se assemelhavam aos remadores de rio que, de repente, se vêem instados a navegar no meio do oceano. Os conhecimentos adquiridos em suas viagens por águas calmas vão proporcionar mais problemas do que ajuda nessa aventura, e na maioria das vezes exibem mais confusão e incerteza do que os próprios passageiros que supostamente deveriam conduzir.
Já havia sinais reveladores dessas turbulências, mas o Ocidente preferia se preocupar com burcas, minaretes e terrorismo. Um relatório do Banco Mundial, publicado em 2009, informava que os países árabes importavam cerca de 60% dos alimentos que consomem e já são os maiores importadores de cereais no mundo, dependendo de outros países para a sua segurança alimentar. A elevação dos preços nos mercados mundiais, desde 2008, já causou ondas de protestos em dezenas de países e milhões de desempregados e pobres nos países árabes, como foram os casos da Argélia , em 1988, e da Jordânia em 1989. Um exemplo mais recente, além da região árabe, é o Quirguistão onde um aumento da eletricidade e tarifas de celulares causaram manifestações com dezenas de mortos e milhares de feridos.
Aqueles que temem o crescimento do “islamismo radical” como fator de instabilidade nessa região, deveriam estar mais atentos em relação às “ditaduras amistosas” que, na verdade, são as principais responsáveis pela insegurança no mundo. Desemprego em massa, preços dos alimentos e repressão política é uma combinação explosiva mais perigosa do que os homens bomba.
A demografia no mundo árabe é também um grande problema. A população cresceu cinco vezes durante o século XX, e o crescimento continua a uma média anual de 2,3%. A população do Egito está em torno de 80 milhões. Em 2050 (de acordo com projeções da ONU) deverá ter 121 milhões. A população da Argélia irá crescer de 33 milhões em 2007 para 49 milhões em 2050; a do Iêmen de 22 a 58 milhões. Isso significa que mais empregos precisam ser criados - e mais alimentos importados, ou aumentar a capacidade para produzir mais. No caso do Egito dois terços da população são jovens abaixo de 30 anos, dos quais 90% estão desempregados.
Baseada no turismo, na agricultura e na exportação de petróleo e algodão, a economia é incapaz de sustentar a taxa de crescimento demográfico. 40% da população vive com menos de US$ 2 (R$ 3,30) por dia, o país está na 101ª posição no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)
De certa forma a auto-imolação do jovem tunisiano, Mohamad Bouazizi, que deflagrou a onda de protestos na Tunisia revela, no nível individual, aquilo que está acontecendo nas sociedades daquela região como um todo. Ele não se rebelou, apenas porque não encontrou trabalho que refletisse suas ambições profissionais, mas sim quando um oficial da polícia confiscou as frutas e legumes que estava vendendo sem autorização. Quando foi fazer uma reclamação para buscar justiça, sua demanda foi rejeitada.
Provavelmente foi este sentimento de injustiça que levou Mohamed Bouazizi e milhares de pessoas às ruas, empenhados em quebrar o ciclo da miséria e opressão.
Talvez seja mais confortável para a chamada comunidade internacional lidar com um mundo árabe dividido entre nacionalistas, relativamente seculares, de um lado e islamismo radical, de outro, do que um mundo mais complexo, com problemas econômicos, sociais e políticos que conta com sua cumplicidade.
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Professor de Relações Internacionais da PUC-SP
Fonte: Carta Maior

Especialista diz que protestos no Egito são manifestações laicas

Texto reproduzido do sítio www.vermelho.org.br
A onda de protestos no Egito é laica e, mesmo que resulte na mudança política que os manifestantes reivindicam, "não deteriorará a situação dos cristãos que vivem no país", afirmou nesta quarta-feira (2) o especialista em demografia Youssef Courbage.
Em entrevista, Courbage, que é diretor de pesquisas do Instituto Nacional de Estudos Demográficos de Paris, ressaltou que a revolta contra o regime do presidente Hosni Mubarak não vai prejudicar a situação dos cristãos no país.
"Não vai afetar porque os cristãos do Egito, sobretudo os coptas, têm uma longa tradição de coabitação com o mundo muçulmano", ressaltou.
Segundo ele, os protestos no Egito "são manifestações da população, muito laicas, muito seculares e as reivindicações são, sobretudo políticas, o fenômeno da religião não está presente".
Para o especialista em demografia dos países árabes, a Irmandade Mulçumana não conseguirá chegar ao poder.
"No máximo, poderão se alinhar com outros partidos políticos e ter alguma pasta em um gabinete de coalizão", ressaltou.
Courbage mostrou-se convencido de que no Egito "a mudança é iminente" e que os grupos que representam a modernidade serão "os que tomarão o poder em um governo de coalizão com diversos partidos".
"O problema é que o Egito está atualmente fragmentado em diversos partidos, mas eles encontrarão um meio de se organizar para governar", disse.
Ele acrescentou que "a evolução do mundo árabe" revela que ele se "encaminha rumo a mais laicismo, mais secularização e que, como consequência, não haverá maiores repercussões sobre a população cristã".
Fonte: Agência EFE

2011: os EUA e o Estado do Mundo

texto reproduzido do sítio opera mundi
Depois de metade do seu mandato, alguma paralisia, uma retumbante derrota eleitoral (nas eleições de meio de mandato em 2010) e algumas vitórias – como a nova legislação de seguro de assistência médica – já podemos fazer uma mais detalhada análise do chamado “fenômeno Obama”. As crises internacionais mantiveram-se praticamente as mesmas – Irã, Coréia e o drama da Palestina.
A “novidade” Obama
A tão esperada “nova abordagem” das relações internacionais, anunciada durante a campanha eleitoral, na verdade não aconteceu. Deu-se, isso sim, a instauração de um clima mais aberto, mais voltado para o entendimento em alguns campos, em particular entre os grandes centros de poder, como o grande acordo com a Federação Russa em 2010. O clima de enfrentamento e de desconfiança, típico da Era Bush, foi suplantado pelo discurso mais aberto e disponível à negociação de Obama, em especial o brilhante discurso na Universidade do Cairo em 4 de junho de 2009. A visita de Dimitri Medvedev, presidente da Rússia – com a inusitada ida com Obama a uma típica loja de hot-dogs – foi também um bom sinal, apesar da extrema direita americana – Tea Party & Sara Palin et alii – terem ficados possessos e ainda mais raivosos.
Hoje, desde o fim da velha ordem mundial (a Guerra Fria, de 1945-1991), a possibilidade de um choque cataclísmico entre grandes potências é a mais baixa de toda história. Um razoável espírito de interdependência norteia as relações EUA/Rússia e EUA/ China. Tal distensão culminou com a recente recepção de Hu Jintao, presidente da China Popular, em janeiro de 2011, a Washington. Neste visita Obama, com realismo e resignação, aceitou o “mantra” de Beijing: a China hoje representa a inédita ascensão pacífica de uma grande potência.
Nova Guerra fria?
Historicamente a ascensão e queda das grandes potências – para citar o ótimo título de Paul Kennedy – foi acompanhada de guerras e conflitos. Foi assim com a Alemanha e Japão no século XX. A China, desde as grandes reformas de Deng Shiao-ping, insiste que a trajetória chinesa em direção ao primado mundial será inédita, marcada pela manutenção da ordem e da paz mundial.
Tal afirmação, aceita e repatida por Obama em janeiro de 2011 no encontro dos dois presidentes, desmente inúmeros analistas – no mais “viúvas” da época da Guerra Fria - que vaticinam uma nova Guerra Fria, desta feita entre os EUA e a China Popular. A Guerra Fria, do ponto de vista histórico, foi um complexo sistema de rivalidades militares, políticas, econômicas e intelectuais entre duas potências em torno de uma utopia de futuro.
Entendida assim, a Guerra Fria é um fato do passado e com tal complexidade jamais se repetirá. Teremos, em verdade, a repetição de “rivalidades internacionais”, como já tivemos, por exemplo, a rivalidade anglo-francesa entre 1680-1815 ou Nipo-americana, entre 1922-1945. Mas, rivalidades não formam Guerra Fria, onde a disputa de supremacia de sistemas sociais e ideológicos era a tôncia maior. Hoje, até a China emula o capitalismo. É infelizmente buscamos uma utopia – Cazuza diria, uma ideologia – para podermos viver e lutar em torno dela.
Na Europa e nos Estados Unidos os movimentos conservadores – do ponto de vista social e político – avançaram imensamente e mesmo movimentos de ressurgência dos fascismos tomaram fôlego em vários países. Mais do que nunca falta uma utopia.
Novos e velhos conflitos
A cooperação entre as grandes potências – EUA – e as novas potências emergentes – China, Índia, Rússia -, a conformidade de um papel de coadjuvante para velhas potências – França, Inglaterra – desenharia uma nova arquitetura das relações internacionais. E com isso uma nova natureza dos conflitos internacionais.
A natureza dos novos conflitos – longe de uma nova ordem mundial pacífica e baseada em negociações internacionais conforme se esperava ao fim da Primeira Guerra do Iraque (1991) – é seu caráter assimétrico (o conflito entre fortes e fracos, no mais das vezes o fraco organizado em forma de Estado-rede em vez de Estado-Nação) ou mesmo dissimétrico (onde se enfrentam dois Estados-Nação, mas de capacidades altamente diferenciadas). Assim, a Administração Obama reafirmou a nova natureza dos conflitos internacionais: nebulosos, desiguais, dispersos e com uso amplo de recursos táticos altamente sofisticados, em especial o recurso a uma ampla panóplia antimecanização (visando anular o poder tecnológico do adversário).
Não podemos ainda esquecer, o retorno em força dos conflitos tipicamente convencionais, como foi a guerra entre a Rússia e a Geórgia em razão da Ossétia, conforme nos ensina Lucien Poirier. O fim do risco nuclear imediato – de Estado para Estado – abriu o caminho, claramente para o retorno das grandes operações militares de caráter clássico, sem as implicações decorrentes da possibilidade da “escalada nuclear”. Assim, o fim do “equilíbrio do terror”, a no balance condition, onde a possibilidade de golpear o adversário com força militar desequilibrada, buscando uma solução militar para as crises, é uma marca da nova ordem mundial, conforme o demonstram as guerras atuais (Iraque I e II, Líbano e Gaza, Geórgia).
Retorno do classicismo e a assimetria
É de extrema relevância, no atual momento dos conflitos da era pós-nuclear, um retorno ao classicismo nos estudos sobre as guerras e, fundamentalmente, na reconstrução da inteireza epistemológica das doutrinas bélicas. O interregno de 1945 ( ou 1947 ou 1949 ) até 1991 provocado pela Guerra Fria e a condição MAD (de mútua destruição assegurada ) foi suplantado. Da mesma forma a chamada “Inversão clauzewitzniana” também o foi. Isso quer dizer:
i. O risco de escalada nuclear dos conflitos é bastante baixa, o que libera as forças convencionais para um amplo uso, marcando o retorno da guerra convencional ou clássica como forma central de conflito entre os Estados-Nação;
ii. Aparição de formas avançadas, tecnologicamente sofisticadas, de guerra irregular, sob a forma de conflitos assimétricos, contrapondo o Estado-Nação a formas novas de Estado-rede, tais como o terrorismo, o narcotráfico, o crime transfronteiriço, etc...
Um texto revelador sobre o tema – e que foi durante muito tempo ignorado em função da fixação tecnicista da estratégia pós-Guerra Fria, é a análise magistral do general francês Lucien Poirier da Primeira Guerra do Golfo ( ou do Iraque, em 1991), quando afirma: "...a Guerra do Golfo restaurou a violência nas suas funções anteriores e marca uma transformação de peso na sua trajetória histórica" (Ver sobre isso: POIRIER, Lucien. La Guerre du Golfe dans La genealogie de La stratégie. In: Revue Stratégique, no. 51, 3º. e 4º. Trimestre, 1991).
Foi assim no caso da “Guerra dos 34 Dias” entre Israel e o Hizbollah, no sul do Líbano em 2006, paralisando as defesas estratégicas do Estado de Israel e causando fortes danos humanos e materiais a uma potência militar da qualidade de Israel. Neste conflito o Hizbollah utilizou largamente foguetes – Note bene: foguetes, não mísseis, Katyuscha, de fabricação iraniana, causando literalmente a evacuação de Haifa – maior porto de Israel e 121 baixas militares, com 628 feridos; além disso – o que o mais grave – os foguetes do Hizbollah causaram 43 baixas civis, e 4262 feridos ( em grau variado de gravidade ). O uso de uma arma primitiva, os erros da inteligência em prever esse tipo de conflito e as táticas errôneas do Tsahal foram, em verdade, um forte choque para os estrategistas israelenses. Mas, em 2009 este típico conflito assimétrico foi reafirmado em Gaza, no Iraque, e recrudesceu imensamente no Afeganistão. Também Somália e Iêmen são exemplos típicos da assimetria bélica atual.
Há um risco nuclear?
O risco nuclear, por sua vez, foi empurrado para a borda do sistema dos Estados-Nação. Durante as décadas passadas o pensamento estratégico ocupou-se em “pensar o impensável”: como sobreviver, e se possível, vencer num conflito termonuclear total – este foi, por exemplo, o papel do estrategista norte-americano Herman Khan. Superada tal condição imediata, com a aceitação tácita e diplomática das grandes potências atômicas da negociação e do compromisso cooperante, o risco atômico tornou-se marginal. Trata-se, no momento, de controlar dois desenvolvimentos da possibilidade de uso do atômico (e do químio-biológico) enquanto armas:
i. De um lado, a posse de tais armas pelo Estado-rede, que por suas características próprias não é suscetível a dissuasão;
ii. De outro lado, impedir o acesso de Estados-párias (the rogue states) a tal possibilidade, limitando o clube dos possuidores de armas de destruição de massas a um número restrito de Estados convertidos à lógica da responsabilidade westfaliana.
Devemos, assim, pensar as condições de conflito e crise da Nova Ordem Mundial a partir das premissas teóricas acima expostas, abrindo caminho para a análise dos mais importantes dossiês críticos atuais e cujo desenrolar será a base das relações internacionais em 2011 (continua).
Francisco Carlos Teixeira é professor Titular de História Moderna e Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O exemplo emergente

Texto reproduzido do sítio www.cartacapital.com

André Siqueira 1 de fevereiro de 2011 às 16:30h

Os países ricos olham para o Hemisfério Sul em busca de soluções para seus próprios problemas. Por André Siqueira. Foto: Fabrice Cofrini/AFP

Os países ricos olham para o Hemisfério Sul em busca de soluções para seus próprios problemas

O desequilíbrio global conseguiu se impor, finalmente, na pauta das principais preo­cupações dos líderes políticos e corporativos reunidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. E nem é tão difícil entender a razão: o crescimento do PIB global é puxado, hoje, pelos países emergentes, em especial os chamados BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) enquanto os Estados Unidos e a União Europeia permanecem atormentados por déficits públicos que ameaçam os esforços de escapar a uma estagnação econômica prolongada.

Em outras palavras, as desigualdades regionais só ganharam status quando o nó passou a apertar mais do lado de cima do globo. Pouco mudou na essência do Fórum, que continua a ser um imenso palco para declarações vazias de boas intenções e trocas de cartões nos bastidores. A diferença é que, neste ano, os representantes de países como Brasil, China e Índia são os convidados de honra de banquetes que, também na área diplomática, nunca saem de graça.

A hospitalidade europeia deve-se, por exemplo, ao interesse em negociar meios de conter a escalada de preços das commodities, um fenômeno que levaria ao mundo inteiro a ameaça da inflação. O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, tem cogitado elevar as taxas de juro na Zona do Euro, em que pesem os efeitos nefastos que o aperto monetário poderia ter sobre as combalidas economias dos países mais endividados da região.

A elevação dos preços agrícolas e da energia não afeta apenas o mundo desenvolvido, e é associada por muitos às graves crises sociais em curso em países como Tunísia e Egito, além de representar uma ameaça a outras regiões, como alertou, em Davos, o presidente da Indonésia, Susilo Yudhoyono. O conselheiro do Fundo Monetário Internacional, Zhu Min, destacou o fato de os alimentos representarem 75% do índice de inflação ao consumidor na Índia, o que torna o país especialmente vulnerável a quaisquer flutuações nos preços internacionais.

A questão é que o encarecimento das commodities não pode ser tratado como uma bolha, como destacam economistas brasileiros. “Não há um movimento especulativo dramático, nem gente tentando acumular estoques. É, sobretudo, o resultado de países emergentes crescendo e consumindo mais, somado a fatores climáticos em países produtores, como a Austrália e a Argentina”, ressalta o professor da USP Simão David Silber.

Ao Brasil, pouco interessa discutir limitações aos preços dos principais produtos de sua pauta de exportação. Não por acaso, a presidenta Dilma Rousseff frustrou expectativas ao se fazer representar em Davos por uma equipe eminentemente técnica, encabeçada pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ao lado dos presidentes do Banco Central, Alexandre Tombini, e do BNDES, Luciano Coutinho. Antes de chegar à Suíça, o chanceler esteve em Bruxelas, onde foi recebido por altas autoridades da União Europeia, interessadas em negociar um acordo comercial com o Mercosul.

A valorização dos produtos agrícolas e minerais, cara aos europeus, representa para o Brasil não apenas uma fonte de pressões inflacionárias. Foi também a principal razão de o saldo comercial ter se mantido no terreno positivo em 2010, conforme mostra o resultado do balanço de pagamentos, divulgado na terça-feira 25. Uma análise do Itaú Unibanco mostra que o volume médio das exportações subiu 9,5%, enquanto o volume importado disparou 37,8% – mesmo assim, o superávit do comércio exterior foi de 20,3 bilhões de dólares, ante 25,3 bilhões de dólares em 2009. Essa cifra contribuiu para manter financiável o déficit nas contas externas brasileiras, que atingiu 47,5 bilhões de dólares, ou 2,4% do PIB no ano passado.

“Mantidos os termos de troca médios de 2009, o saldo comercial seria deficitário em 8,4 bilhões de dólares e o déficit em transações correntes atingiria 3,7% do PIB. O Brasil está com sorte”, conclui o relatório do banco.

A boa maré também trouxe aos trópicos uma corrente de dinheiro sem precedentes. Só no Brasil aportaram 122 bilhões de dólares no ano passado, dos quais 48,5 bilhões de dólares em investimento direto estrangeiro. Ou seja, o ingresso de recursos voltados a atividades produtivas mais do que bastou para cobrir o déficit externo. “O capital especulativo deixou de ser um grande item na conta brasileira, sobretudo nos últimos meses, após as elevações de alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)”, avalia Silber. A medida foi adotada em outubro de 2010, numa tentativa de conter a valorização do real.

Muito atraente para os investidores estrangeiros – seja pela elevadíssima remuneração oferecida pelos títulos públicos ou pela economia doméstica aquecida –, o Brasil ainda não conseguiu reverter a trajetória do câmbio e, segundo o economista da USP, nem conseguirá. “O que devemos fazer é baixar custos internos, de modo a permitir que o setor produtivo se mantenha competitivo, e buscar um ajuste fiscal que permita reduzir os juros”, recomenda.

O Instituto de Finanças Internacionais (IIF, em inglês) divulgou, na terça-feira 24, a previsão de que o fluxo de investimentos nos países emergentes vai alcançar 1 trilhão de dólares em 2011. A entidade, que representa os maiores bancos do mundo, teme que os governos imponham restrições à entrada do capital para proteger as moedas locais de uma valorização excessiva, que tende a prejudicar as exportações.

Ao barrar o capital especulativo, o chamado hot money, os países restringem consideravelmente as possibilidades de ganhos das instituições financeiras globais. Somente sob essa perspectiva é possível entender o conselho endereçado pelo vice-diretor de análise macroeconômica global do IIF, Jeremy Lawson, aos países emergentes: “Os controles não são a melhor resposta para os fortes fluxos de capitais quando, como parece ser o caso agora, as taxas reais de câmbio estão subvalorizadas, a política monetária afrouxada está superaquecendo a economia e há espaço para uma política fiscal mais apertada”.

A análise passa longe da atual situação brasileira, sob qualquer aspecto, mas não impediu a entidade de ir além e, às vésperas de Davos, criticar o País pela adoção de medidas como o aumento do IOF.

O economista Ernesto Lozada, da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), defende a adoção de medidas para domar o fluxo de capital não só no Brasil, mas em todo o mundo emergente. “Quase 13 trilhões de dólares foram liberados pelos países desenvolvidos, entre 2008 e 2009, para socorrer empresas e bancos e evitar uma grande recessão mundial em decorrência da crise financeira”, lembra o professor. “Se o excesso de liquidez não for submetido a controles, o resultado será a formação de bolhas inflacionárias e guerras cambiais, e todo o mundo perde com isso.”

Enquanto a União Europeia mantém o esforço para absorver os resultados dos ajustes de contas nos países mais endividados, como a Grécia, Portugal e Espanha, os EUA não dão sinais de que vão retroceder na estratégia de estimular a economia por meio das taxas de juro em níveis mínimos e generosos estímulos fiscais. Em novembro de 2010, o Fed (banco central americano) anunciou uma operação de recompra de títulos da dívida pública que colocaria no mercado 600 bilhões de dólares. Um dinheiro que, ao transbordar para o restante do mundo, contribui para a perda de valor do dólar e as pressões sobre os preços das matérias-primas e alimentos.

No discurso anual no Congresso,­ feito­ na terça-feira 25, o presidente americano Barack Obama procurou mostrar disposição para cortar gastos e anunciou um congelamento dos gastos governamentais pelos próximos cinco anos. Ao mesmo tempo, se referiu a um ambicioso programa de obras de infraestrutura e outros projetos de incentivo à retomada da atividade econômica. “Foi um discurso dúbio”, avalia Lozada. “Enquanto esperam mais clareza nas posições americanas, todos os países continuam a comprar dólares, até mesmo o Banco Central Europeu.”

O economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, participou do primeiro dia de debates em Davos, na quarta-feira 26, e ajudou a puxar as críticas à frouxidão do mundo desenvolvido, em especial os EUA, ao lidar com os déficits públicos. Conhecido pelo pessimismo, o analista disse identificar um movimento de retomada do crescimento mundial, liderado pelos países emergentes, mas não descartou o risco de um novo mergulho da economia europeia.

Segundo um relatório do FMI, a economia mundial deverá crescer 4,5% em 2011, acima das últimas previsões. Os emergentes serão responsáveis por dois terços dessa expansão. Os EUA, segundo o fundo, devem crescer 3%, apesar da dificuldade em fazer voltar a andar o mercado imobiliário. Na Zona do Euro, a grande dificuldade é evitar que a crise da dívida destrua o sistema bancário da região, responsável por financiar a gastança desenfreada de governos hoje à beira da inadimplência.

Como de costume, os temas mais promovidos pelos governantes presentes a Davos são os que exigem esforços alheios, e não próprios. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, pouco avançou na redução dos subsídios à agricultura doméstica, mas foi insistente na questão da regulação do mercado de commodities. Na quinta-feira 27, afirmou que o objetivo não é impedir que os países produtores se beneficiem da alta de preços, mas evitar que sofram as consequências caso as cotações voltem a cair. “Precisamos de regulação porque isso significa transparência”, afirmou.

Até o fim do Fórum Econômico Mundial, no domingo 30, os representantes do Brasil nos painéis terão muito a mostrar, mas pouco a oferecer. É provável que cause espanto aos europeus, imersos no dilema de cortar gastos sociais e remover direitos trabalhistas enquanto veem a economia patinar, testemunhar que abaixo da linha do Equador foi possível conciliar, nos últimos anos, distribuição de renda e redução da pobreza com um crescimento em bases sustentáveis. Não há, portanto, motivo algum para ceder ao canto da sereia e seguir a cartilha de quem ainda não colocou ordem na própria casa.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Declaração do PC egípicio

A revolução vai continuar até  cumprir as exigências das massas

Aproximou a hora da verdade chegou o momento decisivo e que as forças do povo egípcio, sua necessidade de mudar e derrubar o regime de Mubarak. Parece que a vida de tirania e os mestres especial os norte-americanos levantaram as mãos, na esteira da revolução contínua das pessoas e aumentando em todo o Egito.

Que a criação de milhões de hoje para exigir a saída do Bem-aventurado é aquele que garante a eliminação das conspirações do ditador e sua gangue Alhadwin para impedir a revolução e para contorná-los.

O acordo para formar um comitê goza da confiança do povo e os manifestantes são cruciais para atingir as demandas da revolução política, económica, social, e enfatizamos o Amtalib base aprovados pelas forças nacionais, a atriz popular do parlamento:

1- Desqualificação de Mubarak ea formação de um conselho presidencial para um período transitório de duração limitada

2- Formar um governo de coalizão administrar o país durante o período transitório

3-Para chamar uma assembléia constituinte eleita para redigir uma nova constituição para o país com base no princípio da soberania da nação e assegurar a devolução do poder no âmbito de um Estado democrático, justo civil

4- Processar os responsáveis por centenas de mortes e ferimentos de mártires revolucionários e vítimas de opressão, bem como de segurança para julgar os responsáveis pela pilhagem das riquezas do povo egípcio.

5- Viva a revolução, o povo egípcio

A multidão contra o ditador

Texto reproduzido do sítio www.esquerda.net

Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egipto, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogéneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Artigo | 30 Janeiro, 2011 - 03:17 | Por Robert Fisk

Manifestantes no egito fazem a revoilução

Foto de Sarah Carr, FlickR

Enquanto o Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogéneo dos milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos os seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.

Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-polícias, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogéneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam nas grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não vai mais aceitar a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios polícias pareciam saber que estavam a ser derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher na noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de polícias uniformizados da cabeça aos pés e milicianos sem uniforme.

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de betão, e uma fileira de polícias especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed El Baradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os polícias fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direcção aos polícias. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direcção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados directamente contra El Baradei, que retrocedeu, encharcado.

El Baradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios crêem que chegue a governar o Egipto – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prémio Nobel, trabalhou como principal inspector da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, El Baradei não passaria de mais um criador de confusão, com a sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Então, começaram as granadas de gás lacrimogéneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direcção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo dariam a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a Internet – o que isolou o Egipto do resto do mundo – e todos os sinais de telemóvel estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogéneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e t-shirts, passando em fila pela frente de uma loja de sumos, onde o dono esguichava limonada directamente na boca dos passantes. Sumo de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogéneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egipto, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até à frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os polícias uniformizados andam em pelotões, o sol reflectindo-se no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuçados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espectáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava a acontecer –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direcção à cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Abrigamo-nos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com empregados vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reacção!” – festejou ele. “É como se nada estivesse a acontecer. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentámos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. O coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egipto, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egipto perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egipto venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, caminhões da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um caminhão da Polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um polícia ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os polícias – e guiou-nos até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltámos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzámo-nos com uma lancha amarela, super-rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, erguia uma imensa bandeira: a bandeira do Egipto.

29/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK

Traduzido pelo colectivo da Vila Vudu

Wikileaks revela sabotagem contra Brasil tecnológico

Texto reproduzido do sítio esquerda.net

Casa Branca tomou acções concretas para dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Por Beto Almeida, Carta Maior.

Artigo | 1 Fevereiro, 2011 - 01:00

Área do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA)

Os telegramas da diplomacia dos EUA revelados pela WikiLeaks revelaram que a Casa Branca toma acções concretas para dificultar e sabotar o desenvolvimento tecnológico brasileiro em duas áreas estratégicas: energia nuclear e tecnologia espacial. Em ambos os casos, observa-se o papel anti-nacional dos grandes meios de comunicação brasileiros, bem como escancara-se, também sem surpresa, a função desempenhada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, colhido em uma exuberante sintonia com os interesses estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, ao tempo em que exibe problemática posição em relação à independência tecnológica brasileira.

O primeiro dos telegramas divulgados, datado de 2009, conta que o governo dos EUA pressionou autoridades ucranianas para emperrar o desenvolvimento do projecto conjunto Brasil-Ucrânia de implantação da plataforma de lançamento dos foguetes Cyclone-4 – de fabricação ucraniana – no Centro de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão.

Veto imperial

O telegrama do diplomata americano no Brasil, Clifford Sobel, enviado aos EUA em Fevereiro daquele ano, relata que os representantes ucranianos, através de sua embaixada no Brasil, fizeram gestões para que o governo americano revisse a posição de boicote ao uso de Alcântara para o lançamento de qualquer satélite fabricado nos EUA. A resposta americana foi clara. A missão em Brasília deveria comunicar ao embaixador ucraniano, Volodymyr Lakomov, que os EUA “não querem” nenhuma transferência de tecnologia espacial para o Brasil.

“Queremos lembrar às autoridades ucranianas que os EUA não se opõem ao estabelecimento de uma plataforma de lançamentos em Alcântara, contando que tal actividade não resulte na transferência de tecnologias de foguetes ao Brasil”, diz um trecho do telegrama.

Em outra parte do documento, o representante americano é ainda mais explícito com Lokomov: “Embora os EUA estejam preparados para apoiar o projecto conjunto ucraniano-brasileiro, uma vez que o TSA (acordo de salvaguardas Brasil-EUA) entre em vigor, não apoiamos o programa nativo dos veículos de lançamento espacial do Brasil”.

Guinada na política externa

O Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA (TSA) foi firmado em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, mas foi rejeitado pelo Senado Brasileiro após a chegada de Lula ao Planalto e a guinada registada na política externa brasileira, a mesma que muito contribuiu para enterrar a ALCA. Na sua rejeição, o parlamento brasileiro considerou que seus termos constituíam uma “afronta à Soberania Nacional”. Pelo documento, o Brasil cederia áreas de Alcântara para uso exclusivo dos EUA sem permitir nenhum acesso de brasileiros. Além da ocupação da área e da proibição de qualquer engenheiro ou técnico brasileiro nas áreas de lançamento, o tratado previa inspecções americanas à base sem aviso prévio.

Os telegramas diplomáticos divulgados pela Wikileaks falam do veto norte-americano ao desenvolvimento de tecnologia brasileira para foguetes, bem como indicam a cândida esperança, mantida ainda pela Casa Branca, de que o TSA seja, finalmente, implementado como pretendia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, não apenas a Casa Branca e o antigo mandatário esforçaram-se pela grave limitação do Programa Espacial Brasileiro, pois neste esforço algumas ONGs, normalmente financiadas por programas internacionais dirigidos por mentalidade colonizadora, actuaram para travar o indispensável salto tecnológico brasileiro para entrar no selecto e fechadíssimo clube dos países com capacidade para a exploração económica do espaço sideral e para o lançamento de satélites. Junte-se a eles, os média nacionais que não destacaram a gravíssima confissão de sabotagem norte-americana contra o Brasil, provavelmente porque tal atitude contraria a sua linha editorial historicamente refractária aos esforços nacionais para a conquista de independência tecnológica, em qualquer área que seja. Especialmente naquelas em que mais desagradam as metrópoles.

Bomba! Bomba!

O outro telegrama da diplomacia norte-americana divulgado pela WikiLeaks recentemente e que também revela intenções de veto e acções contra o desenvolvimento tecnológico brasileiro veio à tona de forma torta pela revista Veja, e fala da preocupação gringa sobre o trabalho de um físico brasileiro, o cearense Dalton Girão Barroso, do Instituto Militar de Engenharia, do Exército. Girão publicou um livro com simulações por ele mesmo desenvolvidas, que teriam decifrado os mecanismos da mais potente bomba nuclear dos EUA, a W87, cuja tecnologia é guardada a 7 chaves.

A primeira suspeita revelada nos telegramas diplomáticos era de espionagem. E também, face à precisão dos cálculos de Girão, de que haveria no Brasil um programa nuclear secreto, contrariando, segundo a óptica dos EUA, endossada pela revista, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, firmado pelo Brasil em 1998, Tal como o Acordo de Salvaguardas Brasil-EUA, sobre o uso da Base de Alcântara, o TNP foi firmado por Fernando Henrique. Baseado apenas em uma imperial desconfiança de que as fórmulas usadas pelo cientista brasileiro poderiam ser utilizadas por terroristas, os EUA, pressionaram a Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) que exigiu explicações do governo Brasil, chegando mesmo a propor o recolhimento-censura do livro “A física dos explosivos nucleares”. Exigência considerada pelas autoridades militares brasileiras como “intromissão indevida da AIEA em actividades académicas de uma instituição subordinada ao Exército Brasileiro”.

Como é conhecido, o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, vocalizando posição do sector militar contrária a ingerências indevidas, opõe-se à assinatura do protocolo adicional do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, que daria à AIEA, controlada pelas potências nucleares, o direito de acesso irrestrito às instalações nucleares brasileiras. Acesso que não permitem às suas próprias instalações, mesmo sendo claro o descumprimento, há anos, de uma meta central do TNP, que não determina apenas a não proliferação, mas também o desarmamento nuclear dos países que estão armados, o que não está ocorrendo.

Desarmamento unilateral

A revista publica providencial declaração do físico José Goldemberg, obviamente, em sustentação à sua linha editorial de desarmamento unilateral e de renúncia ao desenvolvimento tecnológico nuclear soberano, tal como vem sendo alcançado por outros países, entre eles Israel, jamais alvo de sanções por parte da AIEA ou da ONU, como se faz contra o Irão. Segundo Goldemberg, que já foi secretário de ciência e tecnologia, é quase impossível que o Brasil não tenha em andamento algum projecto que poderia ser facilmente direccionado para a produção de uma bomba atómica. Tudo o que os EUA querem ouvir para reforçar a linha de vetos e constrangimentos tecnológicos ao Brasil, como mostram os telegramas divulgados pela WikiLeaks. Por outro lado, tudo o que os EUA querem esconder do mundo é a proposta que Mahmud Ahmadinejad , presidente do Irão, apresentou à Assembleia Geral da ONU, para que fosse levada a debate e implementação: “Energia nuclear para todos, armas nucleares para ninguém”. Até agora, rigorosamente sonegada à opinião pública mundial.

Intervencionismo crescente

O semanário também publica franca e reveladora declaração do ex-presidente Cardoso : “Não havendo inimigos externos nuclearizados, nem o Brasil pretendendo assumir uma política regional belicosa, para que a bomba?” Com o tesouro energético que possui no fundo do mar, ou na biodiversidade, com os minerais estratégicos abundantes que possui no subsolo e diante do crescimento dos orçamentos bélicos das grandes potências, seguido do intervencionismo imperial em várias partes do mundo, desconhecendo leis ou fronteiras, a declaração do ex-presidente é, digamos, de um candura formidável.

São conhecidas as sintonias entre a política externa da década anterior e a linha editorial dos grandes média em sustentação às directrizes emanadas pela Casa Branca. Por isso, esses pólos mediáticos do unilateralismo em processo de desencanto e crise encontram-se tão embaraçados diante da nova política externa brasileira que adquire, a cada dia, forte dose de justeza e razoabilidade quanto mais telegramas da diplomacia imperial como os acima mencionados são divulgados pela WikiLeaks.

Beto Almeida é jornalista

Altamiro Borges: WikiLeaks e a ação dos EUA na Venezuela

Altamiro Borges: WikiLeaks e a ação dos EUA na Venezuela: "Reproduzo matéria publicado no sítio Opera Mundi: O diplomata norte-americano Craig Kelly, que foi embaixador dos Estados Unidos em Santiag..."

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Mundo árabe: uma região em tumulto

Texto reproduzido do sítio esquerda.net

Um levantamento sucinto de alguns pontos essenciais da situação política e social que se vive num conjunto de países árabes, traduzido do jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung por João Alexandrino Fernandes.
Artigo | 30 Janeiro, 2011 - 01:27

Manifestações no Egito. Foto de Sarah Carr, FlickR

A tradução que se segue refere-se a parte de um trabalho realizado pelo publicado no dia 29 de Janeiro, dedicado à actual situação no mundo árabe, desencadeada pela revolta na Tunísia e agora também no Egipto. O FAZ publica, no seu dossier sobre o tema, um conjunto de pequenos textos de síntese, destinados a dar ao leitor uma informação sucinta sobre alguns pontos essenciais da situação política e social que se vive num conjunto de países árabes, que, e embora não sendo os grandes protagonistas habituais da política mundial, no seu conjunto ocupam uma área geográfica e cultural de grande extensão. Em sentido oeste-leste, o FAZ refere-se Marrocos, já com problemas na costa ocidental de África, e, a partir de Gibraltar, refere-se, na costa africana do Mediterrâneo, à Argélia, à Tunísia e ao Egipto. No sul do Egipto aborda a situação do Sudão, e, seguindo a costa leste do Mediterrâneo no sentido sul-norte, as situações da Jordânia, do Líbano e da Síria, para terminar mais para leste ainda, no extremo sul da Península Arábica, com o Omã e o Iémen.

Evidentemente que os breves textos do FAZ não esgotam, de forma alguma, o conhecimento da situação dos respectivos países, nem sequer o pretendem. Mas podem ser úteis como indicação ao leitor interessado. Nesse sentido, aqui os deixamos:

Marrocos

Em Marrocos procuram muitos jovens um emprego em vão, jornalistas são condenados a penas de prisão, a corrupção é endémica. No entanto, e diferentemente do Saara Ocidental ocupado por Marrocos, onde na última vez no final de 2010, ocorreram mesmo protestos sangrentos, a situação no país é antes uma situação tranquila, até agora, se bem que depois do início da revolta na Tunísia também aqui tenham ocorrido auto-imolações pelo fogo.

Nos termos da Constituição, o Rei Mohammed VI nomeia e demite os ministros e o primeiro-ministro, podendo a qualquer altura dissolver o Parlamento. No entanto, comparativamente, existe aqui uma maior liberdade de expressão. Em 2004 a situação das mulheres no casamento foi juridicamente equiparada à dos homens.

Argélia

Desde há anos que ocorrem “Revoltas de fome” espalhadas pela Argélia. Assim, quando no início do ano o açúcar e o óleo alimentar encareceram repentinamente, começou no norte um levantamento que rapidamente se estendeu a toda a Argélia. Pelo menos cinco pessoas foram mortas, até que o presidente Bouteflika recuou na subida dos preços. Os militares, que estão ligados à empresa estadual de petróleo e gás Sonatrach, estão-lhe submetidos. No entanto segundo observadores, a Argélia tem potencial para seguir o exemplo da Tunísia. Pobreza, inflação e corrupção amarguram a juventude. Recentemente quatro argelinos incendiaram-se a si mesmos como forma de protesto.

Tunísia

A Tunísia era tida como um país estável – mesmo ainda quando já tinham irrompido as agitações que agora alastraram a quase todo o mundo árabe. Passaram três semanas até que os protestos, que tinham começado a meio de Dezembro na cidade de Sidi Bouzid depois da auto-imolação de um jovem, atingissem a capital Tunes.

Cinco dias mais tarde, o presidente Ben Ali teve de fugir do país – também porque o exército recusou segui-lo na repressão brutal dos protestos. As manifestações continuam, dado que existem representantes do regime que ainda se encontram a participar no poder.

Egipto

As tensões sociais no Egipto irromperam sempre e repetidamente nos últimos anos de forma violenta, frequentemente na forma de disputas entre Muçulmanos e Cristãos coptas.

A oposição contra o regime do presidente Hosni Mubarak, que governa há 30 anos, é duramente reprimida. A maior força de oposição são as irmandades muçulmanas islamitas, proibidas. No entanto, o movimento de protesto que agora abala o país formou-se fora das organizações tradicionais, sobretudo na Internet.

Sudão

O Governo de Cartum não se encontra apenas em apuros por causa da separação do sul, rico em petróleo. Nas eleições parlamentares nos inícios de 2010 ficou claro que também a insatisfação cresce no norte do Sudão, sobretudo entre os jovens.

As eleições não colocaram o presidente Baschir em perigo, tanto mais que seguidamente a oposição se incompatibilizou em discussões sobre a pergunta, como deveria reagir à sua manipulação. Mas que Baschir está nervoso, tal ficou claro depois da revolução na Tunísia: quando o líder islâmico Turabi, de 78 anos de idade, disse, que era “provável” que também algo de semelhante sucedesse no Sudão, foi imediatamente detido.

Jordânia

Na Jordânia reina Abdullah II, que se tornou rei a partir da morte do seu pai Hussein em 1999. Desde as eleições parlamentares, em Novembro passado, o parlamento compõe-se na sua quase totalidade por independentes e chefes tribais, que são leais ao rei. A oposição, sobretudo a Frente de Acção Islâmica, boicotou as eleições.

Também na Jordânia o desemprego é elevado. No entanto, aqui a situação dos direitos humanos é menos criticada do que noutros países árabes. No fim de semana cerca de 4000 pessoas exigiram na capital Amã sob as palavras de ordem “Pão e Liberdade” a demissão do governo.

Líbano

O Líbano já passou pela sua revolução: a Revolução dos Cedros, que se seguiu ao assassinato do antigo ministro-presidente Rafiq Hariri em Fevereiro de 2005. Porém a revolução não se dirigiu contra a elite nacional, como as revoltas na Tunísia e no Egipto, mas sim contra a influência da Síria sobre o país.

A Síria teve, na altura, que retirar as suas tropas, mas não se considerou vencida. Desde esta semana que o Líbano tem novamente um ministro-presidente que está próximo da Síria – e a política vai possivelmente voltar outra vez à rua.


Síria

Na Síria, o presidente Bashar al Assad, que sucedeu ao seu pai Hafiz no ano 2000 e ao mesmo tempo dirige o Partido da Unidade-Baath, permitiu nos últimos anos a entrada de bancos e investidores estrangeiros no país.

No entanto, o país continua fechado e isolado politicamente, sobretudo por causa da sua oposição a Israel e do presumível apoio a revoltosos no Iraque. A Internet está sob censura, não existe imprensa livre, os serviços secretos estão em todo o lado, as críticas ao regime são drasticamente punidas. Em 1982 foram mortas dezenas de milhar de pessoas, quando o regime actuou contra as irmandades muçulmanas.

Iémen

Em 1978 Ali Abdullah Saleh chegou ao poder através de um golpe militar no norte do Iémen; desde que este foi fundido em 1990 com o sul, governa todo o país como presidente. Em 2006 Saleh foi confirmado no seu cargo para mais sete anos.

Separatistas, rebeldes assim com a Al-Quaida estão sempre e repetidamente a desafiar o seu poder. Porém os actuais protestos da oposição e de jovens activistas poderão representar para o governo uma maior ameaça – a insatisfação é grande no mais pobre dos países árabes, no qual o próprio governo indica que o desemprego é de 40% entre os jovens do sexo masculino.

Omã

Omã serve como exemplo de desenvolvimento sustentado: quando o Sultão Kabus Ibn Said aí tomou o poder em 1970, não havia praticamente nenhuma infra-estrutura neste estado do deserto. Hoje existe uma rede de estradas, assistência na saúde e quase mais nenhum analfabeto.

Prudentemente, o sultão deste país do petróleo iniciou também uma política de abertura: desde 2004 existe um “Conselho Consultivo” eleito. Partidos e sindicatos são, no entanto, proibidos. Que debaixo desta superfície existem tensões, viu-se a meio de Janeiro, quando em Mascate 2000 pessoas se manifestaram contra os preços elevados de produtos alimentares. 42 por cento dos três milhões de Omanis têm menos de 15 anos de idade.

Introdução e tradução de João Alexandrino Fernandes

Fonte: „Arabische Welt- Eine Region in Aufruhr“, Frankfurter Allgemeine Zeitung, edição online de de 29.01.11, www.faz.net.
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